Os templos de Deir el-Bahari

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Por Ewerson Dubiela – Historiador do MERCT.

Deir el-Bahari é um sítio arqueológico da necrópole de Luxor, antiga Tebas, que fica na margem ocidental do Nilo. Está logo abaixo de um penhasco, em que a ponta mais extrema é a montanha El-Qurna e, por isso, está logo atrás do Vale dos Reis. O nome, em árabe, quer dizer “Mosteiro do Norte”, devido ao mosteiro cristão cópta construído ali por volta do século 7 da nossa era. No ano de 1828, estando ainda abaixo das ruínas deste monastério e toneladas de areia e rocha que caíram do topo do El-Qurna, o local recebeu a visita da expedição de Jean François Champollion, o famoso decifrador dos hieróglifos e tido até hoje como pai da egiptologia. Entre 1842 e 1845, o explorador e líder da missão prussiana, Karl Richard Lepsius, declarou que o sítio estava na “área mais externa desta rocha-cova (…) situado o mais antigo templo de Tebas Oeste, que pertence à monarquia do Reino Novo, nos começos de sua glória…”[1]. O local teve grandes escavações com Auguste Mariette, que a partir de 1858 tornou-se Conservador dos Monumentos para o governo egípcio. Também executaram trabalhos importantes no sítio, o arqueólogo suíço Edward Naville e, do jovem arqueólogo inglês que será conhecido mais tarde pela descoberta da tumba de Tutankhamon, Howard Carter, já no final do século XIX. De 1911 à 1931 se deram as escavações por parte do Museu Metropolitano de Nova York, dirigida por Herbert E. Winlock.

Quanto aos templos que ali existem, são três ao total. O primeiro e mais antigo é o templo funerário de Montuhotep II e data da XII Dinastia (1991-1783 a.C.). Montuhotep II foi o reunificador do Egito, após as conturbações internas de quase cem anos do Primeiro Período Intermediário (2134-2040 a.C.). O templo consistia em um terraço e um portão de entrada e fechado por três muros e acima havia um outro terraço que possuía uma grande estrutura. Esta forma pode fazer referência à mitologia egípcia e uma conexão com a mitologia heliopolitana, onde o primeiro monte de terra chamado de Ben Ben surgiu do oceano primordial, Num. Deste monte, Rá, o deus Sol, emergiu e criou o mundo. Nesse sentido, o rei iria renascer e recriar o mundo, tal como o deus. A decoração do templo vai desde árvores plantadas na área oeste, como tamareiras e sicômoros que levam para o terraço superior, até cenas em relevo que mostram barcos em procissão, caça e conquistas militares de Montuhotep II.

O segundo templo estava exatamente abaixo do mosteiro que deu o nome da localidade. Trata-se do Djeser-Djeseru, templo funerário da rainha-faraó Hatshepsut (1473-1458 a.C.), da XVIII Dinastia e projetado pelo arquiteto real Senenmut. A construção deste templo se deu a partir do 7º ano de reinado de Tothmés III (1479-1425 a.C.). Para que possamos compreender este período, se faz necessário dizer que Hatshepsut e Tothmés III eram tia e sobrinho. Ao assumir o trono, Tothmés era ainda criança e, portanto, sem condições de governar o País das Duas Terras. Assim, Hatshepsut assumiu como regente e teve uma gradual transição até se transformar em faraó, governando em um sistema de corregência com o sobrinho até o seu 22º ano de reinado, quando faleceu. O templo de Hatshepsut, bem como o de Montuhotep II, também possuía árvores que foram plantadas em seu pátio, à diferença que estas foram trazidas da terra de Punt, um país de localização ainda incerta. A decoração deste templo mostra a viagem para este país como um dos grandes feitos do reinado da rainha-faraó. Outro elemento bastante importante é o Oráculo de Hatshepsut que foi gravado em relevo no mesmo terraço que a viagem à Punt. Este Oráculo é a mitologia do nascimento de Hatshepsut, em que o deus Amon apresenta a rainha-faraó como a herdeira do trono egípcio, legitimando assim a sua coroação. Djeser-Djeseru quer dizer Sublime dos Sublimes ou Sagrado dos Sagrados.

Por fim, o último templo construído, assim como o de Montuhotep II, foi bastante destruído, hoje sabe-se que parte desse fato foi causado por um terremoto no final do Reino Novo (1550-1070 a.C.). Porém, escavações lideradas principalmente a partir de 1962, durante a expedição Egípcia-Polonesa, sob a direção de Kazimierz Michalowski permitiram recuperar boa parte do templo e um santuário da deusa Hathor, atualmente no Museu do Cairo. Este terceiro templo foi erigido a mando de Tothmés III, sendo construído entre os templos de Hatshepsut e Montuhotep II, o seu arquiteto foi o vizir Rekhmira. A intenção para este terceiro templo de Deir el-Bahari foi, possivelmente, a de levar o Djeser-Djeseru de Hatshepsut à Damnatio Memoriae, ou seja, ao esquecimento, uma vez que as procissões da Bela Festa do Vale passariam à ele. Sua construção teve início no 43º ano de reinado de Tothmés III, mesma época em que a Damnatio Memoriae de Hatshepsut teve cabo. O templo funerário de Tothmés III foi chamado de Djeser-Akhet e quer dizer Sublime horizonte ou Sagrado horizonte. Como está bastante danificado, as recentes restaurações permitiram mostrar os tambores das colunas na plataforma rochosa em que foi originalmente erguido, além de pavimentos parcialmente preservados, fundações de paredes e batentes de portas.

O formato desses três templos foi baseado em um tipo de tumba elaborada ainda na época do Primeiro Período Intermediário. Estas tumbas, chamadas Saf, são específicas da região tebana e contam com um grande pátio e, no final, o local de enterro. Sem deixar de seguir este padrão e atribuindo novos contornos, os arquitetos reais conseguiram produzir tais templos. O resultado arquitetônico entre as três construções foi uma sequência de rampas e terraços onde colunas e pórticos flanqueavam suas laterais, trazendo uma harmonia na base do penhasco de quase 100 metros. Hoje, apenas o templo de Hatshepsut está bem preservado e disponível para a visitação, porém, é através dele que temos ideia dessa arquitetura caracteristicamente de Tebas.

Bibliografia

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___________________________________. Auguste Mariette. French Arcaeologist. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Auguste-Mariette

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VERCOUTTER, Jean. O Egito Antigo. São Paulo. Difel. 3ª Ed. 1986.

[1] Verificar a citação, de onde tirei?

O Vale dos Reis

Por: Vivian Tedardi – Historiadora

Câmara funerária do faraó Tutmés III

Ao longo da história egípcia antiga os faraós construíram suas tumbas para que fossem a morada eterna de seus corpos e garantissem a sua existência na companhia dos deuses. As pirâmides são, com certeza, o exemplo mais famoso, porém não as únicas estruturas erigidas para este fim. Os reis que governaram durante o período áureo da história egípcia, o Reino Novo (1550-1070 a.C.), construíram suas tumbas escavadas na rocha, no deserto Ocidental, próximo da capital Tebas, região conhecida como Vale dos Reis.

Os egípcios referiam-se a região como “Grande e nobre necrópole de milhões de anos do faraó que é vivo, seja próspero e são, no oeste de Tebas” ou “O vale – o grande lugar em que descansa o faraó”. Até hoje foram descobertas sessenta e quatro tumbas reais das XVIII, XIX e XX dinastias e o local escolhido para abriga-las não foi aleatório, pois a montanha que acolhe esses sepulcros possui forma piramidal, e é conhecida como el-Qurna. Além deste significado simbólico há outro, visto que a forma de algumas cadeias montanhosas foi associada ao símbolo Akhet, que significa horizonte, local de passagem entre o mundo dos vivos e o mundo dos deuses.

Embora grande parte das tumbas tenham ficado inacabadas, sabemos que o faraó no início de seu governo mandava iniciar os trabalhos para a construção de seu sepulcro. Geralmente o local era escolhido pelo vizir, pelo chefe dos trabalhadores e alguns outros funcionários reais, porém, a decisão final cabia ao rei. Com a escolha do local era realizada a cerimônia de fundação, na qual um ou mais poços eram escavados em alguma área próxima da entrada da tumba e vários objetos votivos eram ali depositados.

Para abrigar os construtores das tumbas reais foi erigida a cidade de Deir el-Medina. Os trabalhadores eram divididos em dois grupos: lado esquerdo e lado direito, sendo que cada um dos lados tinha um capataz, com um ajudante. Havia apenas um escriba por vez, que atendia aos dois grupos. Além desses, viviam na cidade desenhistas, escultores, médicos, assistentes e guardas. Basicamente as atividades estavam relacionadas a construção das tumbas reais. As escavações arqueológicas realizadas na cidade e nas tumbas dos construtores revelaram o cotidiano das pessoas que atuaram na construção desta necrópole real.

Câmara funerária do faraó Seti I

E como eram as tumbas do Vale dos Reis? Escavadas na rocha, são formadas por corredores e câmaras, porém não aleatórias, mas relacionadas a concepção post-mortem do período, principalmente associando o rei ao deus sol Rá. As tumbas seriam uma versão terrestre do mundo ultraterreno, um mundo que o monarca deveria cruzar todas as noites acompanhando o deus solar para que pudesse renascer no Leste no dia seguinte, ao amanhecer. A iconografia presente afirma isso, pois recriava esse mundo ultraterreno e todas as criaturas que o habitavam. Além das associações com Rá, o faraó também era assimilado com o governante do mundo dos mortos, o primeiro dos Ocidentais, o deus Osíris. Cada um dos corredores e salas foram nomeados de acordo com a passagem do deus sol pelo inframundo, sendo que a câmara funerária do rei era chamada de “sala onde o uno descansa” ou “a casa de ouro onde o uno descansa”. O ouro aqui representa divindade, por isso, geralmente, a cor amarela era predominante no espaço, que continha o sarcófago real, e a exemplo da tumba de Tutankhamon, possivelmente este era recoberto por quatro relicários feitos em madeira e folheados a ouro.

Embora as tumbas construídas foram destinadas aos faraós do Reino Novo, os últimos enterramentos ocorreram durante a XXII dinastia, Terceiro Período Intermediário (1070-712 a.C.), quando tebanos reutilizaram algumas delas. Isso ocorreu porque desde a Antiguidade muitas tumbas foram saqueadas. Construídas para não serem encontradas, infelizmente há registros de saques ainda no final do Reino Novo. No período Greco-Romano (304 a.C. a 395 d.C) quinze tumbas eram conhecidas, o que é possível verificar por grafittis encontrados em sepulturas raméssidas e datados desse período.

Embora a pesquisa sistematizada da região tenha iniciado no século XIX, há registros de impressões do local realizadas no século XVII e, em fins do XVIII, com a expedição de Napoleão Bonaparte. Esta, inclusive, foi responsável pela elaboração do primeiro mapa da região, contabilizando dezessete tumbas abertas. Na primeira metade do século XIX, com a exploração imperialista europeia no Egito e a busca por “antiguidades”, levou a descoberta de oito novas tumbas pelo italiano Giovanni Battista Belzoni. Em 1827, para identificação das tumbas, elas foram numeradas em vermelho, em ordem sequencial. Forma que continua sendo utilizada quando uma nova tumba é descoberta, com a sigla KV (Kings Valley) e o número sequencial.

O Vale dos Reis continua sendo explorado arqueologicamente, embora a grande descoberta tenha ocorrido em novembro de 1922, quando o arqueólogo inglês Howard Carter descobriu a tumba de Tutankhamon. Esta estava praticamente intacta, revelando como deveria ser o tesouro dos outros reis enterrados na região, e que tiveram os seus sepulcros saqueados ao longo do tempo. Na verdade, apenas duas múmias de faraós foram encontradas em suas respectivas tumbas no Vale dos Reis: Amenhotep II e Tutankhamon.

Quem visita a região encanta-se com a grandiosidade das tumbas que, mesmo inacabadas, revelam a concepção egípcia antiga na crença além-túmulo. Também o conhecimento construtivo e decorativo daqueles que atuaram na construção das moradas eternas dos reis que, ao terem sua vida eterna garantida, atuavam para a manutenção da Ordem criada pelas divindades egípcias.

O Templo de Edfu

Por: Bruno Deniski – monitor do Museu Egípcio e Rosacruz

As civilizações antigas e suas culturas eram voltadas para a religião, e suas devoções eram colocadas à mostra quando realizavam as construções dos grandiosos templos e outros monumentos em dedicatoria aos seus deuses. Suas cidades eram construidas ao redor dos templos, lugar considerado divino, sendo assim as regiões afastadas dos templos eram consideradas profanas. Como dito, os egípcios antigos não viviam apenas de construções de grandiosos monumentos, eles partilhavam também uma religião complexa, compreendiam o mundo em que viviam por meio dos mitos e suas deidades, ou seja, para eles o espaço onde viviam é em si só religioso, onde os deuses eram fundamentais em todo o cotidiano e em todas as atividades, das mais simples até as mais elaboradas como o reinado do faraó.

Ocorria uma relação ampla entre o monarca e os deuses, principalmente por dois motivos: o primeiro porque o rei era considerado um deus vivo na terra, e dentro dele habitava a alma do próprio deus Hórus e, o segundo dava legitimidade e poder ao faraó. Os templos foram tão importantes que serviram como um meio de legitimar a dinastia Ptolomaica (332 a 30 a.C), pois muitos templos começaram ou foram terminados neste periódo.

Templo de Edfu

Conhecido como templo de Hórus, deus protetor das famílias e dos faraós considerado também como o senhor dos ventos. Encontra-se localizado na margem oeste do Rio Nilo, foi edificado com pedras arenosas e em todas as dimensões das paredes do templo haviam diversas cenas gravadas, sendo algumas dessas  responsaveis por contar o mito da contenda entre Hórus e seu tio Seth.

Tanto no lado direito quanto no esquerdo das paredes internas do templo há representações da procissão divina de Hórus e Hathor, conhecida também como “união divina”, e no fim desta mesma sala encontram-se mais duas estátuas do deus falcão protegendo um portal de uma colunata (sequência de colunas). As gravuras nas paredes do pátio apresentam diferentes cenas, algumas com o faraó rezando, e outras realizando oferendas, local conhecido como “pátio das oferendas”.

Ao lado direito da colunata encontra-se um quarto pequeno chamado de biblioteca onde, possivelmente, os egípcios guardavam rolos de papiros “científicos e administrativos”. Suas paredes são adornadas de imagens iconográficas que representam o chamado “ritual de fundação do templo” onde demonstram o faraó Ptolomeu III dedicando o Templo ao deus Hórus. No final do templo a sala chamada de “Sanctum Sanctorion” é um local com pouquíssima iluminação, e que apenas os sacerdotes poderiam adentrar. Neste espaço era depositado o tabernáculo (parecido com uma capela) onde era posta a estatua de Hórus.

Os templos egípcios são importantes e fundamentais para a compreensão entre o espaço sagrado e o profano, como do mesmo modo para entender a sua relevância para a legitimidade do poder faraônico, isso ocorreu no período ptolomaico, momento no qual há construção e a reforma de diversos templos. Eles podem ser reconhecidos como um meio de demonstração da devoção dos egípcios para com os seus deuses. Desse modo, ao entender os processos de construção e decoração dos templos também compreende-se os acontecimentos históricos e as crenças do povo egípcio.

https://maironpelomundo.com/2016/12/01/o-magnifico-templo-antigo-de-horus-em-edfu-no-egito/ retirado dia 20/08/2019 às 8:41- Nesta imagem pode ser observada na parte interna do templo de Hórus em Edfu, construído no período conhecido como ptolomaico. Neste espaço encontra uma estátua zoomórfica deste deus
https://queromochilar.com.br/edfu-egito/ retirada em 20/08/2019 às 9:00
Imagem de Hórus na forma antropozoomorfica localizada na entrada do templo no lado direito do pilone.
https://arte.laguia2000.com/arquitectura/templo-edfu retirada em 20/08/2019 às 9:04/ nesta imagem pode se observar a estatua de Hórus e ao fundo treze colunas que sustentam um dos lados do templo.
https://www.pinterest.de/pin/291185932152213730/?autologin=true retirada em 20/08/2019 às 9:13 nesta imagem que retrata a sala denominada como “santo dos santos” pode se observar representações iconográficas na parede, como do mesmo modo dois objetos um deles seria uma barca carregando uma peça chamada de tabernáculo local onde colocavam a estatua do deus. Atrás da barca encontra-se outro local utilizado para colocar estatuas.
https://www.pinterest.de/pin/449234131564020106/?d=f&mt=signupOrPersonalizedLogin retirada em 20/08/2019 às 9:28: esta imagem encontra-se localizada na parte externa do templo, representando o faraó Ptolomeu VI sendo abençoado por duas deusas, do lado direito encontrasse a deusa Adjet e do lado esquerdo a deusa Nekhbet
https://www.pinterest.de/pin/641974121852336433/ retirada em 20/08/2019 às 9:32

Referências bibliográficas:

CÂMARA. Matheus Breno Pinto da. ESPAÇO SAGRADO E ESPAÇO DOMÉSTICO: UM ESTUDO SOBRE OS TEMPLOS E AS CASAS NO ANTIGO EGITO. Alétheia Revista de Estudos sobre Antiguidade e Medievo – volume 9, n. 1. UFRN, 2014.

GRALHA, J. Egito Ptolomaico: Arquitetura Sagrada e as relações de Poder. Hélade, v. 1, n. 1, 2015, p. 67-82.

PIRES. Guilherme Borges. O Templo de Hórus de Edfu: As narrativas do sagrado. Universidade Nova de Lisboa, 2013-2014.

O Touro Ápis e sua importância para a sociedade Egípcia

Autor: Bruno Luiz Deniski – Monitor do Museu Egípcio & Rosacruz.

A imagem e representação do chamado touro selvagem foram utilizadas em praticamente todas as grandes civilizações da Antiguidade. Ele representava em geral, a força, a virilidade, a energia, o combate e a fertilidade. Por outro lado, a vaca era a representação da maternidade, do feminino, como também relacionada com a alimentação. De acordo com a cosmogonia egípcia há varias deidades relacionadas ou contendo características de touros e vacas. Dentre eles podem ser destacados três touros considerados sagrados, sendo eles, Ápis (relacionado com Ptah e Osíris), Meruer ou Mnéus (associado a Rá), e por fim Bukhis (associado com Montu e Rá). Do mesmo modo, havia as representações de vacas sagradas, como por exemplo: Bat, Hathor, Mehet-Ueret, Nut, Hesat, Ihet, Sekhat-Hor, Sekhetet, Shentayet e Khensit. De todos esses bovinos sagrados o que mais se destacou foi o touro Ápis, em egípcio Hep, que deteve seu culto desde a fundação do Estado, em 3100 a.C. Seu culto passou pela época Tinita (I-II Dinastias), acontecimento registrado na pedra de Palermo. Considerado como o deus da vegetação, fecundidade, ressurreição, que em alguns momentos era relacionado ao deus-sol Ra, portanto, com o renascimento e fertilidade. O touro era usado também na corrida que confirmava o poder do faraó denominada como “corrida ritual“ chamada de Heb-sed. Esse ritual ocorria quando o rei alcançava o seu 30° ano de reinado e através dele o poder do rei era renovado e legitimado. No evento, o faraó teria que cumprir algumas atividades, por último participava de uma corrida em que deveria acompanhar o touro, o que dava a conotação da crença de que haveria uma troca de poderes entre os dois.

A festa ocorria na cidade de Mênfis, onde o faraó carregaria um cetro nekaka que representava o poder político e social e, durante a corrida, tinha como objetivo demonstrar a sua boa forma física. Supostamente ele venceria o touro, dando-lhe um maior poder para o seu reinado. O animal representava diretamente o poder do monarca como também sua fertilidade e força. Existem várias fontes iconográficas nas paredes de diversos templos em que o touro aparece nas demonstrações do poder destrutivo do rei e nas cenas em que caça touros e leões – essas representações podem ser consideradas como cenas ritualísticas que tinham como objetivo demonstrar o poder do monarca como controlador do universo, dentro e fora do Egito.

Na cidade de Mênfis, o touro representava a fecundidade, figurava a força vital da Natureza e era considerado também como o próprio deus Ptah. Era também relacionado com outros dois deuses sendo eles Ra (deus do sol e da criação, tendo seu culto na cidade de Heliópolis), assim Ápis representava a vida e, por último, Osíris (deus dos mortos, relacionado com a vegetação, sendo o padroeiro da cidade de Abydos), desta maneira o deus touro ganhava outra característica: o do renascimento. Ápis era representado com um disco solar em sua cabeça ue caracteriza sua relação com o deus Atum e entre seus chifres havia a imagem da deusa serpente Uraeus.

Com o passar do tempo, suas características como um deus touro foram crescendo e ganhando ainda mais importância dentro da cosmogonia egípcia, Ápis começou a se diferenciar de outras deidades tauromorfas, e com isso adquiriu aspectos próprios. O deus tinha traços únicos, segundo alguns historiadores clássicos, era necessariamente um touro negro, de barriga e patas brancas, com uma mancha branca em formato de um abutre ou uma águia, localizada em seu dorso. Outros pontos de suas peculiaridades, era uma mancha em forma de um besouro-escaravelho, localizada na parte inferior de sua língua, e uma calda com duas pontas de cores distintas uma preta e a outra branca. Só poderia haver um touro Ápis, esse bovino sagrado vivia em extremo luxo.

De acordo com a mitologia, o deus Ápis era filho de Ptah, no ato de sua criação o deus desceu até a terra em forma de uma luz celeste e fecundou uma vaca para o nascimento do deus touro. Haveria uma construção dedicada a ele localizada perto da de seu pai Ptah, onde ocorriam dedicatórias, pois o povo egípcio deixava ferendas de alimentos e riquezas. Quando Ápis morria, seu corpo era mumificado e embalsamado e o lugar de seu enterro era chamado Serapeum. Os egípcios ficavam entre 60 e 70 dias de luto e, logo após a sua morte, os sacerdotes iniciavam a escolha do novo representante do deus touro.

Seu poder como divindade perdurou até o período Romano, alcançando sua popularidade entre os gregos que juntamente com Osíris transformaram-no em um novo deus denominado Serapis, chegando a ser um dos maiores deuses do panteão egípcio.

Imagem de Ápis deus touro que representava o poder do faraó.
Estela de calcário representando o culto ao touro Apis, encontrada no Serapeum, em Sakara.
Representação iconográfica de Osíris deus dos mortos
Representação de Ptah deus protetor de Mênfis, cidade localizada na região norte do Egito, era também considerado como criador do mundo.

Referências bibliográficas:

DAVID, Rosalie. Religião e magia no Antigo Egito. Editora Bertrand Brasil, tradução de Angela Machado. Rio de Janeiro, 2011.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo; tradução de Paulo Neves. Porto alegre, RS. P.128 – coleção L&PM Pocket, v. 805. L&PM, 2009.

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SALES. José das Candeias. O touro na mitologia egípcia: Ápis, cerimónias, insígnias e epítetos reais. Universidade Aberta.

SALES. José das Candeias. Em busca do touro Ápis pelos caminhos da mitologia do antigo Egipto. Lisboa: Editora Universidade Aberta/ Centro de História da Universidade de Lisboa, p. 61 – 82, 01/06/2014.

https://www.fascinioegito.sh06.com/boiapis.htm

https://www.egitoantigo.net/apis-deus-egipcio-da-fertilidade.html

https://ancientegyptonline.co.uk/bullcult/

https://australianmuseum.net.au/learn/cultures/international-collection/ancient-egyptian/bull-apis-e39829/

Paleta de Narmer

Este artefato pode representar a transição do período pré-dinástico para o dinástico egípcio. Na parte superior dos dois lados desta placa, o nome do faraó aparece protegido pelas cabeças da deusa Bat dentro de um Serekh, uma representação de fachada de palácio

As abominações do país: o assassinato do faraó Ramsés III

Por Ewerson Dubiela – Historiador do Museu Egípcio

Ramsés IV statue

Ramses Usermaatra Meryamon é conhecido por nós como Ramsés III. O faraó governou durante quase 32 anos, entre 1194 e 1163 a.C.[1] e foi o segundo rei da XX Dinastia (1196-1070 a.C.). Sua tumba original encontra-se na margem ocidental do Nilo, uma das dezenas escavadas na rocha, porém, o corpo acabou por ser removido pelos próprios egípcios antigos por conta dos roubos dos enxovais funerários, sendo encontrado no final do século XIX, em 1881, em um esconderijo real de Deir el-Bahari, denominado como DB320.

A múmia de Ramsés III está em excelente estado de conservação, fato observável a partir dos primeiros exames que ocorreram no Museu Nacional Egípcio, no Cairo, também em fins do século retrasado. A autópsia não pode identificar feridas, evidencias de sufocamento, estrangulamento ou envenenamento e, por isso, houve a ideia de que o governante pudesse ter morrido de uma doença chamada arteriosclerose. A partir de 2012, um grupo de pesquisadores[2] realizou diversos exames antropológicos, forenses, radiológicos e genéticos em múmias do Museu Nacional Egípcio, dentre elas, a de Ramsés III.

O corpo do faraó Ramsés III possui um tecido que envolve o pescoço. Conforme se aplicou o exame de Tomografia Axial Computadorizada, TAC, pôde-se observar um ferimento, produzido por uma lâmina afiada de quase 7 cm de comprimento. Tal ferimento se deu da 5ª até a 7ª vértebra, somando a destruição dos tecidos moles dessa área. O TAC identificou também que a cavidade do ferimento acabou por ser preenchida com materiais que os sacerdotes egípcios usavam na mumificação dos cadáveres. Entretanto, há um pequeno amuleto wdjat, olho de Hórus, de 15 mm colocado na abertura, a intenção poderia ser proporcionar integridade e saúde, além da reparação do dano através de magia.

De maneira mais recente, outro estudo[3] sugere que o assassinato se deu após luta, já que um dos dedões do pé do faraó foi decepado e o ferimento não teve tempo de cicatrizar. Assim, a possibilidade é que o ataque pode ter sido realizado por duas pessoas, uma pela frente de Ramsés III com uma espada ou machado e outra por trás do rei, atingindo-o com uma faca ou adaga no pescoço. É possível que esse episódio tivesse como objetivo não apenas a morte do governante, mas também a remoção do príncipe herdeiro, Ramsés[4].

As informações sobre a tentativa de assassinato do rei estão contidas em quatro papiros: Judicial de Turin, Rollin, Lee e Rifaud, sendo o primeiro o mais importante. É no papiro judicial de Turin que o episódio é denominado como “As abominações do país”, também anuncia os membros do tribunal e os jurados, além de apresentar uma primeira lista de acusados qualificados, cada um, como “Grande inimigo” e detalhar o envolvimento destes.

Sabe-se que o complô havia nascido no harém real, com a Grande Esposa, Tiye. Esta era mãe de um dos príncipes mais próximos à Ramsés III, Pentawera. Diversos funcionários reais e parentes destes estão relacionados com o regicídio, como Pabakkamen, que era chefe da câmara e dos lacaios do rei e Ashahebsed, seu assistente. No papiro se diz:

O Grande Inimigo Pabakkamen, que havia sido chefe da câmara. Foi traído por sua cumplicidade com Tiye e as mulheres do harém e por fazer causa comum com elas. Ele começou a levar as mensagens para fora, para as mães e os irmãos daquelas que se encontravam aqui, dizendo: ‘Levanta as gentes e incita a inimizade para que se rebelem contra o seu Senhor’.

O papiro judicial de Turin traz instruções prévias, audiências com veredictos, emissão de sentenças e execução dessas, também irregularidades como tentativas de suborno – general Payis a membros do tribunal. Aos condenados pelo assassinato do rei diversos tipos de punição foram aplicados: corporais, mágicas e morais.[5] Por fim, podemos nos perguntar quais foram as motivações para tal crime. Observando o governo de Ramsés III, percebe-se que o rei tinha preferência pelos membros da elite do Baixo Egito e, de certa forma, excluía os do Alto Egito, o que pode ter gerado um certo remorso e competitividade. O reinado também foi marcado por problemas de corrupção, incursões de povos vizinhos no Egito e complicações administrativas. As incursões e derrotas desses povos estão registradas no templo funerário de Ramsés III, Medinet Habu, um dos monumentos erigidos pelo rei por conta da situação de estabilidade em que o Egito se encontrava, apesar dos ataques exteriores. O templo em si, bem como o as representações do governante, foram baseadas no reinado de Ramsés II.[6] Quanto às complicações administrativas, podemos citar, no âmbito palaciano, o casamento do faraó com duas grandes esposas, ao invés de uma como era a prática. A primeira, que já mencionamos, era Tiye, mãe de Pentawera. Ela era filha de nobres do Alto Egito. A segunda era Isis, filha de um alto funcionário de origem estrangeira, estabelecida no Baixo Egito. Isis deu luz à Ramsés. Os dois príncipes eram muito próximos ao pai e bem relacionados quanto à sucessão do trono, entretanto, a partir do ano 22 de reinado, Ramsés III escolheu o filho de Isis, Ramsés, para ser seu herdeiro. Portanto, houve a condenação de um e a elevação de outro, apesar dos dois terem o mesmo direito à coroa. Além disso, a promoção de modificações dos títulos na área monumental e a construção diferenciada de tumbas aumentou a desigualdade, fomentando a rivalidade entre irmãos.

O assassinato de Ramsés III foi levado a cabo, conforme mostrou as imagens do TAC, porém, a conspiração foi descoberta e, assim, Pentawera acabou por ser responsabilizado e Ramsés IV assumiu o trono por cerca de 7 anos. É possível que Pentawera seja a famosa “múmia que grita”. Um rapaz de 18 a 22 anos de idade quando morreu, identificado hoje como “Homem desconhecido E”. Foi descoberto na mesma época e na mesma tumba que Ramsés III. Diferente de outras múmias, esta foi preservada sem que houvesse a remoção dos órgãos internos e sem emprego de faixas de linho ou preservação do nome, tendo sido enfaixado com pele de carneiro e, possivelmente, estrangulado ou enforcado, dado os elementos identificados no TAC e sua expressão de contorção.

 

Múmia de Pentawera
Múmia de Ramsés III
Estátua de Ramsés III

[1] BRANCAGLION, Antonio. Quadro Cronológico – Lista de Reis. Laboratório Seshat. Museu Nacional UFRJ.

[2] HAWASS, Zahi; ISMAIL, Somaia; SELIM, Ashraf; SALEEM, Sahar N; FATHALLA, Dina; WASEF, Sally; GAD, Ahmed Z; SAAD, Rama; FARES, Suzan; AMER, Hany; GOSTNER, Paul; GAD, Yehia Z; PUSCH, Carsten M & ZINK, Albert R. Revisitin the Harem conspiracy and death of Ramesses III: anthropological, forensic, radiological and genetic study. Christmas. 2012.

[3] HAWASS, Zahi; SALEEM, Sahar. Scaning the pharaohs: CT Imaging of the New kingdom Royal Mummies.

[4] GALLARDO, Francisco L. Borrego. Un rey, un háren y magia negra: el asesinato del faraón Ramsés III. Universidad Autónoma de Madrid.

[5] Idem.

[6] BAINES, John; MÁLEK, Jaromír. A civilização egípcia. Grandes civilizações do passado. Folio.

Referências Bibliográficas

BAINES, John; MÁLEK, Jaromír. A civilização egípcia. Grandes civilizações do passado. Folio.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo. Porto Alegre. L&PM pocket. 2013.

GALLARDO, Francisco L. Borrego. Un rey, un háren y magia negra: el asesinato del faraón Ramsés III. Universidad Autónoma de Madrid.

HAWASS, Zahi; ISMAIL, Somaia; SELIM, Ashraf; SALEEM, Sahar N; FATHALLA, Dina; WASEF, Sally; GAD, Ahmed Z; SAAD, Rama; FARES, Suzan; AMER, Hany; GOSTNER, Paul; GAD, Yehia Z; PUSCH, Carsten M & ZINK, Albert R. Revisitin the Harem conspiracy and death of Ramesses III: anthropological, forensic, radiological and genetic study. Christmas. 2012.

HAWASS, Zahi; SALEEM, Sahar. Scaning the pharaohs: CT Imaging of the New kingdom Royal Mummies.

JOHNSON, Paul. O Egito Antigo. 2010.

WILKINSON, Richard H. Egyptology today. Cambridge. 2008.

E-Referências

ALENCAR, Lucas. Pesquisa revela detalhes do assassinato do faraó Ramsés III. In: Revista Galileu online. 2016. Disponível em: Acesso em 04/2019.

CIÊNCIA E SAÚDE. Tomografia revela que faraó egípcio teve garganta cortada.In: G1.Globo. 2012. Disponível em: Acesso em 04/2019.

COSTA, Márcia Jamille. Ramsés III foi assassinado com corte na garganta. 2012. Disponível em: Acesso em 04/2019.

CULTURA. Revelado mistério da morte do faraó Ramsés III. In: JN. 2012. Disponível em: Acesso em 04/2019.

DALEY, Jason. CT Scan shows pharaoh Ramesses III was murdered by multiple assassins. In: Smithsonian. 2016. Disponível em: Acesso em 04/2019.

OLIVETO, Paloma. Ciência revela complô de 3 mil anos: Ramsés III teve garganta cortada. Disponível em: Acesso em 04/2019.

PRESSE-FRANCE, Agência. Ciência revela complê de 3 mil anos: Ramsés III teve garganta cortada. In: Correio Brasiliênse. 2012. Disponível em: Acesso em 04/2019.

HALE, Tom. CT Scan reveal brutal injuries on pharaoh Ramesses III. In: IFLScience. 2016. Disponível em: Acesso em 04/2019.

BJM, The. Egyptian Pharaoh. The Mummy of king Ramesses III. In: Live Science. 2016. Disponível em: Acesso em 04/2019.

ESPETACULAR, Domingo. Faraó Ramsés III e a múmia que grita. In: Rede Record de Televisão. 2018. Acesso em 04/2019.

 

[1] BRANCAGLION, Antonio. Quadro Cronológico – Lista de Reis. Laboratório Seshat. Museu Nacional UFRJ.

[2] HAWASS, Zahi; ISMAIL, Somaia; SELIM, Ashraf; SALEEM, Sahar N; FATHALLA, Dina; WASEF, Sally; GAD, Ahmed Z; SAAD, Rama; FARES, Suzan; AMER, Hany; GOSTNER, Paul; GAD, Yehia Z; PUSCH, Carsten M & ZINK, Albert R. Revisitin the Harem conspiracy and death of Ramesses III: anthropological, forensic, radiological and genetic study. Christmas. 2012.

[3] HAWASS, Zahi; SALEEM, Sahar. Scaning the pharaohs: CT Imaging of the New kingdom Royal Mummies.

[4] GALLARDO, Francisco L. Borrego. Un rey, un háren y magia negra: el asesinato del faraón Ramsés III. Universidad Autónoma de Madrid.

[5] Idem.

[6] BAINES, John; MÁLEK, Jaromír. A civilização egípcia. Grandes civilizações do passado. Folio.

A Grande Esfinge de Gizé

 

Quando se pensa sobre o Egito Antigo, uma imagem que geralmente vem à mente é a da grande Esfinge de Gizé, que dizem ser coberta de mistérios, charadas e maldições. Mas será que ela realmente representa isso tudo ou haviam outros significados sobre ela?

O grego Heródoto foi um dos primeiros a escrever sobre os egípcios, porém ao chegar na terra das pirâmides, os sacerdotes se recusaram a compartilhar seus conhecimentos com ele, o que levou Heródoto a tomar as próprias conclusões sobre a cultura egípcia antiga.

Uma das observações de Heródoto foi sobre a Esfinge de Gizé, localizada a leste da pirâmide do faraó Kafra (Quéfren) e ligada a ela pelo acesso da rampa entre o templo do vale e o templo da pirâmide. Heródoto acabou por chamar o monumento como “Esfinge” que na realidade é o nome dado a uma criatura da mitologia grega, caracterizada por ter o rosto humano, corpo de leão e asas em suas costas, se dizia que era comum que as esfinges fizessem charadas a humanos, que quando não sabiam responder, acabavam devorados. Assim, Heródoto associou as criaturas mitológicas às estatuas egípcias, criando-se a ideia de que o real significado das esfinges seria esse.

Entretanto, as estatuas representavam o poder e a divindade do próprio faraó, dando a ideia de que o Rei era sagrado e poderoso, e possuía a força e vigor de um leão. A Esfinge de Gizé tem nela representada o rosto do faraó Quéfren, mostrando ser datada da IV Dinastia (2575-2465 a.C.). Um outro fato curioso sobre esta Esfinge, é a Estela dos Sonhos, uma placa de granito posta entre as patas dianteiras da estátua, que fala sobre a primeira tentativa de “desenterrá-la” da areia, já que teria sido soterrada até os ombros após o abandono da necrópole de Gizé. A Estela tem a seguinte inscrição:

“… o filho real, Tothmés, chegou, enquanto caminhava ao meio-dia e sentando-se à sombra deste poderoso deus, foi superado pelo sono e dormiu no exato momento em que Rá estava na cúpula [do céu]. Ele descobriu que a majestade deste deus falou-lhe com sua própria boca, como um pai fala para o filho, dizendo: Olhe para mim, contemple-me, ó Tothmés meu filho, eu sou o teu pai, Harmakhis-Khepri – Ra – Atum, eu conceder-te-ei a soberania sobre o meu domínio, a supremacia sobre a vida… Eis a minha condição real para que tu proteja todos os meus membros perfeitos. A areia do deserto que estou colocado cobriu-me. Salve-me, fazendo com que tudo o que está no meu coração seja executado.”

A Estela fala que o responsável pela primeira escavação, da qual se tem notícia, teria sido o faraó Tothtmés IV (1401-1391 a.C.), que recebeu a mensagem da própria Esfinge através de um sonho, enquanto tirava um cochilo próximo a escultura, no qual ela pedia que lhe fosse removida a areia, e em troca, o deus Sol faria dele rei.

No decorrer do século XIX, em 1817, houve uma nova restauração supervisionada pelo italiano Giovanni Caviglia, descobrindo todo o peito da estátua, e apenas em 1925 foi completamente desenterrada. Em 1926 parte de seu turbante teria caído, por conta da erosão fazendo com que em 1931 engenheiros trabalhassem na região de sua cabeça para uma restauração total, mostrando a Esfinge como temos até os dias atuais.

 

Por: Vinicius Dzala Lara Wassem – Monitor do Museu Egípcio e Rosacruz

BAINES, John; MALIK, Jaromir. Cultural Atlas of Ancient Egypt. London: Andromeda Oxford Limited, 2008.

HART, George. The British Museum Pocket Dictionary of Ancient Egyptian Gods and Goddesses. British Museum Press, 2001.

Alexandre, o libertador do Egito

Por Arthur Fanini Carneiro – Monitor do Museu Egípcio e Rosacruz

Alexandre, “O Grande” ou Alexandre Meryamun Setepenra – amado de Amon, escolhido de Ra – foi um rei Macedônio que em 332 a.C., após conquistar a Anatólia e o Levante – região da Palestina e Judeia –, derrotou diversas vezes o rei persa Dário, o que permitiu sua chegada ao Delta do Nilo. Isso ocorreu em 525 a.C., os persas haviam dominado o Egito. Alexandre em sua campanha expansionista, conquistou o Império Persa, e quando chegou ao Egito a população aceitou os macedônios. A partir daí, passaram a cultuar Alexandre como seu libertador e novo faraó, uma vez que os egípcios preferiam o rei macedônio, que deu, inclusive, liberdade de culto às divindades egípcias, do que os persas, que eram inimigos históricos do Egito.

Alexandre trazia a proposta de que seu império não deveria ser de dominação, mas uma mescla de culturas de diversas civilizações. Os macedônios levariam seus conhecimentos e costumes por todo o império, em contrapartida, aprenderiam com outros povos e se adaptariam as suas culturas, o que caracteriza o helenismo. Para o rei macedônio exemplificar essa adaptação na região do Egito, ficou conhecido como filho de Zeus-Amon, unindo as principais divindades das religiões grega e egípcia.

Durante o ano em que Alexandre permaneceu no Egito, ele ordenou a construção de uma cidade em estilo grego na região do Delta do Nilo – norte do Egito – que serviria como capital para seu governo em terras egípcias e a batizou de Alexandria: uma das 19 cidades com o mesmo nome espalhadas por todo império macedônio. Essas cidades tinham propósito administrativo-cultural e se caracterizavam por sua arquitetura em estilo grego e por suas bibliotecas, que deveriam conter textos de cada parte do império, compartilhando assim o conhecimento entre os povos. Um dos destaques de Alexandria era o seu farol considerado uma das maravilhas do Mundo Antigo, uma obra erguida a pedido de Alexandre.

Nove anos depois da conquista do Egito, em 323 a.C., Alexandre morreu sem deixar herdeiros e seu império foi dividido entre os seus generais. Durante aproximadamente quarenta anos, as divisões do Império Macedônio, que resultaram da morte de Alexandre, trouxeram uma série de conflitos pela sucessão do trono – iniciados pelo general Ptolomeu que ficou com o governo da região egípcia. Naquele país, Ptolomeu iniciou a adoração de Alexandre como uma divindade, o que permitiria aos egípcios aceitá-lo como novo faraó, sendo sucessor legítimo de um deus. Seguiu os mesmos ideais de Alexandre, mesclando e respeitando as culturas, fortalecendo ainda mais a união entre gregos e egípcios.

A conquista do Egito por Alexandre permitiu que uma nova dinastia surgisse, conhecida hoje como Ptolomaica, que existiu por aproximadamente trezentos anos. Encontrou seu fim com os romanos, que anexaram o território egípcio, após o suicídio da última rainha egípcia, Cleópatra VII, que perdeu a guerra para o general romano Otavio Augusto, em 30 a.C.

[1] Epíteto greco-egípcio dado a Alexandre quando o mesmo libertou o Egito e foi cultuado como faraó.

REFÊRENCIAS

BOSE, Partha. Alexandre, o grande: a arte da estratégia. Rio de Janeiro: Best Seller, 2006.

GREEN, Peter. Alexandre, o Grande e o período helenístico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

LÉVÊQUE, Pierre. O Mundo Helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987.

MOSSÉ, Claude. Alexandre, o Grande. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.

PLUTARCO. Vidas Paralelas: Alexandre e César. São Paulo: Nova Fronteira, 2016.

O Mito Cosmogônico de Heliopólis

A religião egípcia é um assunto muito interessante e intrigante. No Egito Antigo a religião estava presente em tudo, desde a organização social até mesmo nas explicações das atividades naturais, como por exemplo o nascer e pôr do sol, que só ocorria porque o deus sol Ra assim queria; da mesma forma o rio Nilo que só fluía porque o deus Hapi assim desejava.

Um dos mitos egípcios mais importantes que retratam a criação do mundo é o mito da cidade de Iwnw, conhecida posteriormente como Heliopólis, como foi batizada pelos gregos. Tal mito enfatiza o deus sol Ra como sendo o criador e pai de todos os deuses. E a fonte mais eminente que traz essa mitologia são os chamados Textos das Pirâmides (datado de 2550 a.C.), além de outra muito importante que é o capítulo 17 do livro dos mortos (livro datado de 1580 a.C.), denominado como “Capítulo para sair a luz do dia“, que demonstra a passagem do sol nascente ao poente, onde o sol em si solidificava o pensamento de renovação e o primeiro raio solar caracterizava-se como o ato final da criação divina. E mesmo em datas posteriores pode-se encontrar registros sobre o mito de Heliópolis que se espalharam por várias cidades no decorrer de vários anos.

Segundo o mito exposto no Texto das Pirâmides, no início havia o oceano caótico, chamado Nun. Desse oceano, surgiu uma montanha, o primeiro pedaço de terra, chamado Ben Ben. Das sombras apareceu uma garça real, comparável a uma fênix, denominada Bennu. Essa ave pousou sob a montanha e emitiu um forte grito. O silêncio deu lugar ao som. Então, o pássaro voou. De dentro da montanha surgiu Atum, sua luz tomou o lugar da escuridão e da não existência. Ra tomou a forma de Atum, tornando-se “Ra-Atum”.

Atum cuspiu seus filhos e vomitou suas filhas, dentre eles o deus Shu, relacionado com o ar atmosférico. Depois surgiu sua irmã Tefnut, associada ao orvalho e a umidade, ambos tiveram uma união estável que originou outras duas divindades, Geb e Nut. A primeira tornou-se a terra e a segunda o céu estrelado. Ra não queria que ocorresse a criação de novos deuses, então ordenou que seu filho separasse os dois netos para evitar que mantivessem qualquer tipo de relação. Shu, em obediência a seu pai, fez a separação de seus filhos, colocando-se entre o céu e a terra. O mito também faz referência ao deus Toth que tentou ajudar os dois irmãos. Para isso, ele jogou e venceu uma partida de Senet com o deus Khonsu (deus da lua), o que originou mais cinco dias no calendário egípcio, permitindo que os dois jovens deuses pudessem se relacionar. Com isso, Geb e Nut deram origem a seus filhos sendo eles Osíris, relacionado com a vegetação e rei dos mortos, Ísis – deusa da magia, Seth – deus do caos, e do deserto e, por último, Néftis – deusa protetora das tumbas.

O mito de criação é muito importante para a compreensão da religião egípcia, pois esse mito demonstra as principais características religiosas da sociedade, e o quão devotos eles eram para com os seus deuses. Ele demonstra do mesmo modo as diferenças e as individualidades de cada deidade. O livro dos mortos, um dos principais registros da criação do mundo, demonstra-se mais evoluído do que o Texto das Pirâmides, por exemplo. Essa mudança demonstra a evolução não só do povo egípcio, mas também de suas crenças.

Trecho do “Livro dos Mortos” que representa a separação do céu e da terra – deusa Nut (céu) que aparece com o corpo longo e arqueado, deus Shu que a sustenta e deus Geb demonstrado deitado.

Imagem em auto relevo do deus sol Ra

Estatua do deus Hórus em sua forma zoomórfica.

Por: Bruno Luiz Deniski – Estagiário no Museu Egípcio e Rosacruz.

Referência Bibliográficas:

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo.

TRAUNECKER, Claude. Os deuses do Egito.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Egito Antigo.

Montuhotep II e a reunificação do Egito

Deir-el-Bahari-com-os-templos-de-Montuhotep-II-e-Hatshepsut

Para que possamos falar sobre os faraós e, principalmente, sobre a reunificação do Egito, podemos destacar a unificação do território por volta do ano de 3100 a.C. O responsável por essa união e também o primeiro monarca que temos registros é Narmer (ou Menes para os gregos). Antes, a região egípcia era dividida em diferentes tribos, as quais cada uma tinha seus respectivos chefes denominados nomarcas, eram ao mesmo tempo chefes militares e políticos que lideravam unidades administrativas chamadas nomos. Um registro importantíssimo que retrata este acontecimento é a paleta de Narmer.

Deve ser destacada a importância que o faraó tinha dentro do Egito: para eles, o soberano seria um deus vivo que teria a alma de Hórus, sendo assim a própria divindade na terra. O faraó era o intermédio entre o povo e os deuses, sendo também sumo sacerdote que realizava rituais sagrados nos templos. Os monarcas eram aqueles que governavam as Duas Terras – o Alto e Baixo Egito –  e através de guerras de conquista e expedições punitivas mantinham os inimigos sob seu controle ou os destruíam – o que complementa Maat (a ordem cósmica).

O chamado Primeiro Período Intermediário, que teve o início por volta de 2.134 a.C. e seu termino em 2.040 a.C., leva esse nome por questões de guerras e conflitos internos entre diferentes soberanos, marca também a transição do Reino Antigo para o Reino Médio e inclui a VII até a XI Dinastias. Para classificar essa transição há diferentes estágios. Os monarcas egípcios do Primeiro Período Intermediário dividiam o poder entre duas cidades especificas sendo elas as cidades de Heracleópolis e Mênfis. A primeira perdeu seu território e seu poder para os governantes da XI Dinastia (2134 – 2040 a.C), chamada também de Dinastia tebana, que transformou Tebas na nova capital do Egito durante parte do Reino Médio (2040 – 1640 a.C.).

Montuhotep-II

O primeiro estágio foi representado pela desintegração do país na VI Dinastia que corresponde aos anos de 2.323 até 2.150 a.C., e o declínio do governo centralizador que corresponde à VII e VIII Dinastias, além de vários regentes que continuaram a deter o poder na cidade de Mênfis (primeira capital do Egito). Já o segundo ocorreu por um colapso na monarquia Menfita, que foi marcada por certas questões como, por exemplo: a anarquia e as guerras entre os governantes provinciais. A fome, a pobreza e a doença espalharam-se por todo o território egípcio. Há registros que falam sobre sepulturas e monumentos que foram saqueados e destruídos por ladrões, e tais problemas desencadearam conflitos bélicos e religiosos, esses eventos foram registrados nos chamados “Textos Literários Pessimistas”. Os conflitos internos eram também contínuos ataques surpresas realizados pelos beduínos que residiam na região fronteiriça que se localizava ao nordeste do Médio Egito.

O terceiro estágio destaca-se por questões em que os governantes da cidade de Heracleópolis surgiram como novos regentes que dominaram o Médio Egito, entre as cidades de Tebas e Mênfis (IX e X Dinastias). O chamado Akhtoy (Kheti) foi o governante que conduziu seu povo a vitória e estabeleceu Heracleópolis como a nova capital do Egito durante o Primeiro Período Intermediário. A anarquia foi controlada temporariamente, houve um período de paz no qual realizaram construções de templos nas localidades de Beni Hassan, Akhemim e El – Bersh. Neste mesmo período se erguia a família dos Antef´s na cidade de Tebas. Logo, esta família teve disputas e conflitos com os soberanos da cidade de Heracleópolis. Tal fato foi gravado na tumba do governante Akhetoy em Assiut.

Mentuhotep_Seated

Outros acontecidos foram registrados no texto “A Instrução Dirigida ao Rei Merikare” em que um regente já com uma certa idade dirigia a palavra para seu sucessor e filho, tal escritura tinha como finalidade estabelecer o poder politico do monarca. No último estágio, Montuhotep II, descendente dos Antef´s, conquistou o poder geral do país, restaurando então as questões políticas e sociais, acabando com a anarquia e a guerra civil. O monarca apaziguou todo o território egípcio e permitiu que os governantes provinciais mantivessem o seu poder. Consolidou a cidade de Tebas como nova capital do Egito e estimulou o crescimento da arte e arquitetura.

Montuhotep II foi responsável por reunificar o Egito depois do Primeiro Período Intermediário e também responsável por fundar o Reino Médio, por volta do ano de 2040 a.C. Talvez Montuhotep II não tenha governado todo o território egípcio, mas com certeza foi o reunificador do país. A construção mais famosa da XI Dinastia é o monumento funerário único que Montuhotep II Nebhepetre mandou construir para si em Deir el-Bahari, em Tebas.

 

Por: Bruno Luiz Deniski –

Referências:

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo. São Paulo 2009.

CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito Antigo. 1982.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito. Ed. Difiel.

BRANGAGLION, Antônio. Quadro Cronológico – Seshet. Museu Nacional.