Terceiro Período Intermediário

Viviane Roza de Lima

Os períodos conhecidos como “intermediários” no Egito Antigo significavam momentos de grandes mudanças na sua forma de organizar a política, a sociedade e a cultura, no qual se observa a substituição do governo central por uma fragmentação política e uma distribuição do poder em centros locais espalhados por todo o país. De 1069-747 a.C, líbios (oriundos da Líbia ao leste do Egito) e núbios/kushitas (oriundos do reino de Kush, atual Sudão, ao sul do Egito) cada vez mais se tornam presentes em meio a disputas de controle de território e recursos, muito embora os enfrentamentos violentos não fossem constantes.

Conhecido também como a “Era de Prata”, o Terceiro Período Intermediário não mais alcançou a glória de outrora. Passou a reutilizar e reativar ritualmente uma série de monumentos reapropriados e transportados de diversos locais para a recém construída Tânis, fundada por Esmendes (1069-1043 a.C), primeiro rei da XXI dinastia, ao norte. Ainda assim, as dinastias XXI – XXV não constam em nenhuma das listas reais conhecidas e a quantidade de documentação deste período conservada é escassa.

Quando Ramsés XI faleceu (1099-1069 a.C.), último faraó da XX dinastia, a aparente unidade do país foi descortinada em contrapartida com a grande tensão interna entre os reis do Norte com sede no Delta, em Tânis, e os reis do Sul, comandantes militares que também detinham o cargo de “Grande Sacerdote de Amon”, com sede em Tebas

É na XXI dinastia que acontece o desmantelamento das tumbas reais do Reino Novo (no Vale do Reis), que deixou de ser local de enterramento real e encerra-se a comunidade de Deir el Medina (construtores de tumbas). O conteúdo de muitas tumbas foi saqueado, levando ao sumo sacerdote Pinedjem I (107-1030 a.C.) a retirar várias múmias e seus tesouros funerários para lugares mais escondidos e a salvo dos roubos: no Cachette de Deir el-Bahari (Bab el-Gasus) e no Cachette Real TT 320 (TT – Tumba Tebana).

Com a constante descentralização do governo foi possível o crescimento de bases locais de poder, aumentando a autonomia dos descendentes de colonos líbios presentes desde o final do Reino Novo. Havia uma classe de ex-militares e chefes de grupos mercenários que conquistaram posições de influência local, fruto de recompensas por serviços ao Egito. Tanto no Norte quanto no Sul apareceram cada vez mais famílias governantes líbias que, com o tempo, passaram pelo processo de egipcianização, adotando nomes, vestimentas e costumes funerários. Por cerca de quatrocentos anos, os líbios controlaram toda ou a maior parte do Egito, continuando algum controle durante a dominação núbia (kushita).

O contato direto de Kush com o Egito ocorreu em 750 a.C, com Kashata, o primeiro governante, cuja base fundamental de governo era militar. No entanto, houve uma tolerância com relação à administração descentralizada que ocorria no país. Importância maior ocorre com o cargo de “Esposa do deus Amon”, em Tebas. Sua influência local foi elevada, bem como dos que estavam na sua comitiva ou daqueles que estavam no cargo de governador de Tebas. Embora fossem diferentes no que diz respeito a ideologia da realeza, os governantes kushitas absorveram a cultura egípcia muito antes, como se observa nas tumbas reais de Kush em forma de pirâmides, com uma absorção cuidadosa das tradições canônicas dps egípcios.

Devido à sua política ativa com relação ao Levante, se conduziu um conflito entre Kush e a Assíria. Esta já havia tomado a Babilônia e partes dos territórios da costa mediterrânica. Pelo envolvimento kushita na Palestina, a Assíria conquistou o Egito em 667 a. C., com a invasão de Assurbanipal. Embora os dois últimos monarcas kushitas, Taharqa Khunefertemra (690-664 a. C.) e seu sucessor Bakara Tanutamani (664-656 a. C.) tivessem realizado tentativas de se reintegrarem ao trono egípcio, não tiveram sucesso e foram expulsos do território.

Ainda que a conotação desvantajosa que o termo “intermediário” tenha sido atrelado aos momentos de interlúdio das “épocas gloriosas” do Egito, as mudanças culturais e sociais ocorridas floresceram na sociedade fazendo com que o Terceiro Período fosse um tempo distinto dentro do contexto geral da história egípcia. As trocas culturais com os povos líbios, núbios e kushitas certamente provocaram modificações das tendências religiosas e artísticas na sociedade da época. Podemos ainda, considerá-lo como tendo lançado as bases para a última grande fase de prosperidade do Egito Antigo.


Escultura real de Ramsés II, no templo de Karnac, usurpada por Faraó Pinedjen I e sua esposa.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pinedjem_I,_Karnak,_Egypt.jpg

Vaso líbio – 943 / -716

https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010016996


Estátua de Karomama, divina adoradora de Amon

(874-859 a. C.)

Museu do Louvre, Paris.

https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010007975


Núbio (em pé, tanga, arreio, segurando, cesto, carregando); macaco (sentado) (macaco sentado no ombro; costas retas)

-760 / -526 (?) (XXVe dinastia [?]; XXVIe dinastia [?])

Local da descoberta: Sudão (Cartum, conforme inventário)

E 3835 A

https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010009018



As pirâmides de Kush, em Meroé (atual Sudão)

https://www.nuevatribuna.es/articulo/cultura—ocio/historia-civilizaciones-reino-de-kush-nubia/20231103191526218986.html


Estatueta divina do faraó Taharqa

https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010006659

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

‌CAMPBELL, Price. The Third Intermediate Period. In: Ancient Egypt. Thames & Hudson, 2018.

O surpreendente esconderijo de múmias de faraós encontrado no século XIX em Deir el-Bahari (TT320) – Arqueologia Egípcia. Disponível em: <http://arqueologiaegipcia.com.br/2017/02/21/o-surpreendente-esconderijo-de-mumias-de-faraos-encontrado-no-seculo-xix-em-deir-el-bahari-tt320/>. Acesso em: 1 fev. 2024.

 

TAYLOR, John. El tercer Período Intermedio (1069-664 a. C.). In: Historia del Antiguo Egipto. SHAW, Ian (Ed.). La esfera de los libros, 2016.

STRUDWICK, Helen (Ed.). La enciclopedia del antiguo Egipto. Edimat Libros, 2007.

O Reino Novo

Emanoel Barbieri Januário – monitor do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

O Reino Novo teve início com a expulsão dos hicsos, finalizada por Ahmés I, o primeiro rei da XVIII dinastia. O Reino Novo é repleto de faraós de grande importância para a história do antigo Egito, tendo vários exemplos de líderes militares, que permitiram evoluções culturais e arquitetônicas.

Um exemplo de rei conquistador foi Tothmés I (1504-1492 a.C) que expandiu e anexou novos territórios, batalhando, por exemplo, contra o povo Mitani. Regiões muito importantes para o Egito como a Síria, a Palestina e a Núbia, eram mantidas sobre o controle egípcio por serem localidades associadas ao comércio e à economia, principalmente a última, já que grande parte do ouro que circulava em terras egípcias provinha daquela localidade.

É também no Reino Novo que o clero começou a se expandir, se tornando peça chave durante o período. No reinado de Tothmés III, os vizires (conselheiros do rei) ganharam um documento que ditava suas funções, intitulado de “Os deveres do vizir”, sendo eles os responsáveis por assuntos religiosos e civis, como o recolhimento e a guarda dos impostos.

Um momento interessante da história do antigo Egito, é o reinado de Amenhotep IV (1353-1335 a.C). O governante se declarou único sacerdote do deus sol – Aton – e removeu o culto aos outros deuses. Ele mudou o próprio nome para Akhenaton, que significa “Aquele que é útil a Aton”.

Outro faraó que podemos mencionar é Ramsés II (1290-1224 a.C). Ele conquistou um momento de paz crucial para o Egito, durando aproximadamente 50 anos. Essa paz foi instaurada em seu governo a partir do ano 21 de seu reinado e, como ele viveu por muito tempo, seus feitos foram amplamente registrados. Ramsés II viveu tanto que somente seu 13° filho conseguiu o suceder no trono do Egito.

Após a morte de Ramsés II, o Egito começou a ter uma leve decadência do poder faraônico. Apenas os três próximos sucessores conseguiram manter a relativa estabilidade do país. Após um período de 90 anos, o Egito já estava muito fragmentado, pois os sacerdotes disputavam o poder com os reis, assim iniciou-se o Terceiro Período Intermediário.


1.Cabeça de Amósis I. Reino Novo. 18° Dinastia. 1550-1525 a.C.
2. Harpa Curva (Harpa de ombro). Reino Novo. 18° Dinastia. 1390-1295 a.C

3.Akhenaton sacrificando um pato. Reino Novo, Período Amarniano. 18° Dinastia.
1353-1336 a.C.

 


4. Estátua cubo de Bay. Reino Novo. 19° Dinastia. 1294-1250 a.C.
The Metropolitan Museum of Art. 1353-1336 a.C.


5. Batente de porta de um templo de Ramsés II. Reino Novo. 19° Dinastia. 1279-1213 a.C.
The Metropolitan Museum of Art.

Referências:

BAINES, John. MÁLEK, Jaromír. A Civilização Egípcia. Coleção Grandes civilizações do passado. Barcelona: Ediciones Folio, 2008.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo. 1° edição, L&PM Pocket Encyclopaedia, 2009.

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico: Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

Referências de imagens:

  1. Cabeça de Amósis I. Reino Novo. 18° Dinastia. 1550-1525 a.C. The Metropolitan Museum of Art. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/547950.
  2. Harpa Curva (Harpa de ombro). Reino Novo. 18° Dinastia. 1390-1295 a.C. The Metropolitan Museum of Art. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/546194.
  3. Akhenaton sacrificando um pato. Reino Novo, Período Amarniano. 18° Dinastia. 1353-1336 a.C. The Metropolitan Museum of Art. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544056.
  4. Estátua cubo de Bay. Reino Novo. 19° Dinastia. 1294-1250 a.C. The Metropolitan Museum of Art. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/554769.
  5. Batente de porta de um templo de Ramsés II. Reino Novo. 19° Dinastia. 1279-1213 a.C. The Metropolitan Museum of Art. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544718

O Segundo Período Intermediário

Por: Celi Zinher Tsvetch – monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

A época correspondente entre o Reino Médio e o Reino Novo é nomeado Segundo Período Intermediário (1640 a.C. – 1550 a.C), marcado como um tempo de ruptura da integridade territorial do Egito. A tradição egípcia comumente se refere a essa época como a mais grave ocupação do território, já que os hicsos, uma população de origem asiática, invadiram o país. O termo hicso deriva do egípcio heqa khasut, que significa “príncipe de terras estrangeiras” e é utilizado em textos desde o Reino Antigo, sem determinar exatamente a origem dessa população, mas vestígios apontam para a origem do povo como nômades vindos da região sírio-palestina.

Um facilitador da ocupação hicsa foi a fragmentação política que já vinha ocorrendo no norte do país desde a XIII Dinastia. Por exemplo, o faraó Ay Merneferra (1704 – 1690 a.C) decidiu ser enterrado próximo a cidade de Avaris e não em Menfis, a capital, o que sugere o esfacelamento da unidade na região do Delta. Mas a conquista hicsa no Egito só foi possível por um detalhe: o desenvolvimento técnico e tecnológico desse povo em combate, que comparado com os egípcios, era superior. Nesse caso, em campo de batalha os asiáticos já utilizavam cavalos e carros de guerra, além de espadas feitas de bronze. Essas ferramentas e conhecimentos contribuíram para a permanência dessa população por quase dois séculos no Vale do Rio Nilo.

Enquanto os hicsos dominavam o Baixo Egito, formando a XV Dinastia, e consolidavam Avaris como sua capital, o Alto e uma parte do Médio Egito eram controlados por uma dinastia egípcia, que inclusive participou das tentativas de reunificação do país. Apesar do caráter negativo apontado pelos egípcios do Reino Novo, nos registros sobre o Segundo Período Intermediário, no tempo de controle hicso, essa população assumiu muito dos costumes locais, como adotar Seth como deus dinástico, praticar a escrita hieroglífica e utilizar nomes de tradição egípcia.

Além disso, os hicsos foram responsáveis por levar várias tecnologias para o Vale do Rio Nilo. Como já mencionado, eles apresentaram os cavalos e as bigas para os egípcios, acontecimento muito importante, pois os primeiros carros de guerra possibilitaram que essa tecnologia fosse adotada e aperfeiçoada e, com o tempo, passou a ser utilizada em batalhas, inclusive pela realeza egípcia. Uma espécie de gado chamada zebu e materiais para a fabricação de cerâmica de maneira mais rápida e eficiente são outras inovações levadas pelos asiáticos para o Nilo.

Na tradição egípcia, o Segundo Período Intermediário é entendido como uma época de caos, ou seja, de ausência de Maat, a deusa e o conceito de ordem e equilíbrio na sociedade egípcia. Portanto, a ordem no território só teria sido novamente alcançada com a expulsão dos hicsos. A primeira guerra de unificação do país foi realizada pelo faraó Kamés Wadjkheperra, que documentou suas estratégias em duas estelas, e inclusive registrou a interceptação de um pedido de apoio que um príncipe hicso enviou ao reino de Kush. A unificação realmente só ocorreu com o sucessor de Kamés, durante o reinado de Ahmés, que iniciou a XVIII Dinastia e inaugurou o Reino Novo.

Em uma inscrição sobre a Rainha Hatshepsut (1473-1458 a.C.), feita mais de 80 anos após a guerra entre hicsos e tebanos, é pontuado o tradicional papel da governante como restauradora da ordem após o caos: “Eu levantei o que foi desmembrado desde a primeira vez em que os asiáticos estavam em Avaris”. É interessante notar que mesmo após um grande tempo, a expulsão dos hicsos ainda era referenciada com grande louvor, o que demostra a importância do acontecimento para a história local.  

Referências:

BOURRIAU, Janine. The Second Intermediate Period. In: SHAW, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. 1° edição, United States, New York: Oxford University Press, 2003.

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico: Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

CARDOSO, Ciro Flamarion S. O Egito Antigo. Editora Brasiliense, 1982.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo. 1° edição, L&PM Pocket Encyclopaedia, 2009.

FRIZZO, Fábio. De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a.C.). R. Mest. Hist., Vassouras, v. 12, n. 1, p. 25-40, jan./jun., 2010.

GARCÍA, Alberto Gonzáles. Los hicsos y su dominio sobre Egipto. BAEDE, Boletín de la Asociación Española de Egiptologia, N. 21, p. 7-26, 2012.

 

Referência imagens:

  1. Tiara de ouro com cabeças de gazelas e veados entre flores ou estrelas. Origem: Delta do Rio Nilo. Segundo Período Intermediário. The Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544073
  2. Cabo de chicote em forma de cavalo. Faz referência ao domínio hicso e a chegada dos cavalos no Egito levados por esse povo. The Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544853
  3. Caixão Rishi, característico do Segundo Período Intermediário. The Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/555886

 

 

O Reino Médio

Rafaela Gouvea – monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

O Reino Médio foi um período marcado pela estabilidade política e econômica. Ele se inicia com a XII dinastia que durou aproximadamente de 2040 a.C a 1640 a.C. Após uma fase de declínio do poder real enfrentada pela sociedade egípcia, os reinados tebanos do Reino Médio buscaram restaurar o controle e unificar o território por meio de um poder centralizado, apoiando-se em um discurso que empregava tanto a valorização do passado glorioso do Reino Antigo, como os ensinamentos trazidos pelo período de crise do Primeiro Período Intermediário.

A XII dinastia foi iniciada com reinado de Amenemhat I, que muito provavelmente foi vizir do último soberano da XI dinastia, Montuhotep IV. A XII dinastia teve oito governantes, sendo os governos de Senusret I, Senusret III e Amenemhat III os mais marcantes. Os faraós do Reino Médio empregaram uma série de reformas administrativas. Os nomos transforaram-se em novas unidades territoriais de referência e, dessa forma, a administração regional funcionou conjuntamente às estruturas governamentais, que tornaram possível o bom funcionamento das instituições monárquicas naquelas regiões. Os governantes dessa dinastia se destacaram por afirmar uma independência em relação aos seus predecessores, possivelmente devido as condições de subida ao trono de Amenemhat I, que permanecem pouco esclarecidas. A legitimação ao trono está ligada à forma como a literatura foi empregada durante o período, pois permitiu que um governante não pertencente à linhagem real originária subisse ao trono.

A produção literária do Reino Médio chegou até os dias atuais em fragmentos e referências que podem ser encontrados em textos posteriores. Esses textos permitem a compreensão de parte do pensamento dos antigos egípcios e de sua organização naquele período.

Assim como em outros momentos, a maioria dos textos estavam relacionados a propósitos religiosos e funerários. Porém, destacam-se o aumento da produção literária autobiográfica e o surgimento de outro gênero literário: o de ensino. Podemos citar a Profecia de Neferty e as Admoestações de Ipuwer. Nelas é possível demonstrar a desestruturação de um reino diante do enfraquecimento do poder monárquico (Admoestações de Ipuwer) e a legitimação dos governantes do Reino Médio como restauradores da ordem (Profecia de Neferty). Como apontado por Leguizamón (2010), é possível encontrar nesses escritos tanto a descrição do caos, quanto a valorização de um governo unificado e centralizado, no qual os homens vivem de acordo com Maat e o equilíbrio do universo é mantido.

Os escribas possuíram papel fundamental na construção dessas narrativas. Com a função de armazenar dados que não podiam ser confiados a memória, passaram a ser vistos como aqueles que combinavam em seu ofício o aprender a escrever e viver como homem sábio. Tinham o dever de incorporar os valores promovidos pela realeza e transmiti-los. A transmissão para população, em sua maioria analfabeta, ocorria oralmente nas formas de mitos, provérbios e regulamentos que eram divulgados em festividades e rituais.

Assim, aqueles que dominavam o monopólio da produção dos escritos podiam selecionar as memórias do passado, controlando e gerenciando o que se dizia e o que era silenciado. Ao empregar a reorganização da monarquia centralizada, os governantes do Reino Médio construíram uma narrativa marcada por uma intenção política de valorização e legitimação de seus reinados, recorrendo a um passado ideal (Reino Antigo) e a um momento caótico (Primeira Período Intermediário) para demonstrar a necessidade de um reino onde o poder estivesse centralizado e a ordem dominante.

  1. Papiro Ipuur, hoje mantido no National Museum of Antiquities, localizado em Leiden – Holanda (https://pt.wikipedia.org/wiki/Papiro_Ipuur)

2-Fragmento da Profecia de Nefertiti, hoje mantido no Los Angeles County Museum of Art, localizado em Los Angeles – Estados Unidos (https://ca.wikipedia.org/wiki/Profecia_de_Neferti)

3- Lintel de Amenenhat I e divindades, hoje mantido no Metropolitan Muserum, Nova Yorque – Estados Unidos. (https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544206)

 

4- Cabeça de Senusret III, hoje mantido no Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal (https://gulbenkian.pt/museu/colecao-com-historias/senusret-iii/)

Referências bibliográficas:

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico – Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

COELHO, Liliane Cristina. Vida privada e vida pública no Egito do Reino Médio (c.2040-1640 a.C.). 2009. 268f. Dissertação (Mestrado em História)- Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2018. Acesso em: 10 jun, 2023. Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/22308

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo: Uma breve introdução. L&PM Pocket Encyclopaedia, 2009.

Leguizamón, Yésica Jimena. La representación literaria del caos y la re-unificación de las Dos Tierras: breve esbozo de dos textos literarios del Reino Medio. 36. ed. Buenos Aires: Trabajos y Comunicaciones, 2010. Acesso em: 10 jun, 2023. Disponível em: http://sedici.unlp.edu.ar/handle/10915/18114

Primeiro Período Intermediário

Orlando Buratto – monitor do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

Ao final da VI Dinastia (2323 a.C. – 2150 a.C.), o Primeiro Período Intermediário (2134 a.C. – 2040 a.C.) foi um momento da história do Egito em que houve um enfraquecimento na centralização política.

A figura de autoridade do faraó começou perdendo parte de sua influência no final da VI Dinastia, possivelmente por conta de problemas agrários e da conturbada relação comercial e social com a baixa Núbia, se agravando ao longo do reinado de Pepi II (2246 a.C. – 2152 a.C.). A longevidade do faraó também foi um elemento de crise, já que no final de sua vida havia poucos herdeiros ideais vivos. Assim, todos esses elementos progressivamente enfraqueceram a centralização política durante as dinastias VII, VIII, IX e X.

Os reis de Heracleópolis, que reinaram durante as dinastias IX, X e no começo da XI, ao mesmo tempo que possuíam o direito de governar o território egípcio, acabaram não possuindo forte influência política para comandar todos os nomos. Essas unidades administrativas eram regiões que tinham uma cidade como capital e possuíam geralmente nomes relacionados a animais, elementos naturais ou conceitos do cotidiano e da religião. O grande responsável pelas províncias eram os nomarcas, governadores regionais que administravam essas cidades em nome do faraó.

O processo de descentralização política fez com que os nomarcas adquirissem mais autonomia. Uma prova dessa liberdade foi a incorporação da hereditariedade ao cargo, não sendo mais necessário que o rei admitisse os novos governadores. Esse fator criou uma série de famílias de governantes provinciais que encaravam os nomos como seus territórios particulares; esses grupos formaram clãs com outras famílias, também compostas por administradores de nomos, desenvolvendo grandes forças políticas que concorreram com os governos centrais.

No início da XI Dinastia, Tebas surgiu como uma nova força no Egito, transformando o cenário político em algo mais complexo. O país estava oficialmente dividido entre os governos do Sul, Tebas, o do Norte, Heracleópolis, e entre diversos nomarcas espalhados por todo o território egípcio, que cada vez mais adquiriam poder e influência na região. Vale salientar que ambos os protagonistas desse governo dual (Tebas e Heracleópolis) alegavam legitimidade em seus reinados, mesmo eles coexistindo.

Esse período foi repleto de guerras civis e confrontos internos, em grande parte motivados pelos interesses pessoais dos nomarcas na ampliação de seus domínios. Uma amostra disso é o grande número de relatos acerca de soldados e mercenários estrangeiros no norte do país.

A produção cultural também sofreu mudanças, já que cada nomo possuía mais autonomia, permitindo que suas produções artísticas e arquitetônicas passassem a apresentar características distintas de província para província. Os textos das pirâmides, que são uma série de escritos, reúnem orações, cosmogonia e ritos religiosos e tinham como objetivo guiar o rei até o mundo dos mortos. A obra, que era destinada somente aos faraós, passou a ser utilizada pelos nobres.

Esse período de instabilidade política e territorial no Egito acabou pelas mãos do principal rei da XI Dinastia, Montuhotep II (2061 a.C – 2010 a.C.), que reunificou todo o território nilótico, transformando a cidade de Tebas na nova capital do reino e centralizando novamente o poder na região. situava-se em Mênfis.

No início deste período (final da III dinastia e início da IV dinastia) ocorreu uma reforma religiosa com princípios voltados aos sacerdotes do deus Rá (deus solar), divindade associada à cidade de Heliópolis. Este processo ficou conhecido como solarização da monarquia e tornou a família real descendente do deus sol. Este aspecto pôde ser observado na necessidade de preservar o sangue solar da realeza como uma forma de legitimação ao trono. Diante disto, neste período, surgiram as relações endogâmicas, caracterizadas pelas uniões matrimoniais entre parentes, como os casamentos reais entre irmãos ou meios-irmãos.

Assim, tendo o mito como referência, o rei seria aquele que nascia da própria relação entre a rainha (divinizada como a deusa Ísis) e o faraó (filho do deus Rá). A partir do nascimento de novos descendentes, estes passariam a possuir a natureza divina antes pertencentes aos pais.

No período do Reino Antigo, o território egípcio estava unificado e o poder centralizado nas mãos do faraó. Este era responsável por administrar as terras e os homens, era o chefe da religião e dos cultos, sendo considerado o próprio deus na terra. Além disso, ele era responsável pela administração do território e construções públicas.

Para o controle administrativo, o território era dividido em 42 nomos, administrados pelos nomarcas (funcionários públicos que respondiam ao faraó). Os cargos importantes, como o de Vizir, eram ocupados por filhos ou netos reais. A legislação deste período tinha caráter divino, baseado na deusa da justiça e da verdade (Maat).

A arte do Reino Antigo teve reformas significativas, principalmente na arquitetura funerária. Foi durante a IV dinastia que o complexo de Gizé foi organizado. Construído por Khufu (Quéops) 2551-2528, Khaf-Rá (Quefren) 2520-2494 e Menkaurá (Miquerinos) 2490-2472, além das três pirâmides encontra-se na região a grande esfinge e inúmeras tumbas de altos funcionários, conhecidas como mastabas.

Antes das três famosas pirâmides, o faraó Snefru (2575-2551 a.c) construiu três pirâmides em seu nome, a pirâmide Meidum (começada por Huni, da III dinastia e finalizada por Snefru, da IV dinastia), a pirâmide romboidal (pirâmide curvada, a única construída neste formato) e a pirâmide vermelha, esta última ficou conhecida como a primeira pirâmide de faces lisas. As pirâmides da IV dinastia eram mais numerosas em quantidade, porém não apresentavam decoração nas paredes internas.

A construção das pirâmides está diretamente ligada a solarização da monarquia, pois esta forma arquitetônica representava o primeiro monte de terra a surgir durante a criação do mundo e, por isso, um símbolo solar. Além das pirâmides, as mastabas evidenciam, através de sua iconografia, a realidade deste contexto histórico, pois trazem informações bibliográficas do proprietário da tumba. Como exemplo desta produção artística das mastabas, tem-se a estela funerária de ladrilhos do arquiteto real, Upemnefert. Esta estela, além de retratar seus cargos e homenagear os deuses, traz informações de algo bom que ele fez em vida, por exemplo, Upemnefert era superior dos pescadores. 

Por fim, a decadência do período do Reino Antigo ocorreu a partir do reinado de Pepi II (2246-2152) por conta da deterioração das relações externas do Egito com a Baixa Nubia e Punt. Outro ponto foi o aumento da fome ocasionado por uma série de desastrosas inundações baixas, o surgimento de fatores que implicaram no crescimento do índice de mortalidade e o conturbado período de transição de sucessão do faraó.

O Reino Antigo

Camila Czelusniaki– Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

O Reino Antigo é o período da história egípcia que compreende da IV a VI dinastia, entre os anos 2575-2134 a.C. Este período também é conhecido como o “Império Menfita”, pois a capital situava-se em Mênfis.

No início deste período (final da III dinastia e início da IV dinastia) ocorreu uma reforma religiosa com princípios voltados aos sacerdotes do deus Rá (deus solar), divindade associada à cidade de Heliópolis. Este processo ficou conhecido como solarização da monarquia e tornou a família real descendente do deus sol. Este aspecto pôde ser observado na necessidade de preservar o sangue solar da realeza como uma forma de legitimação ao trono. Diante disto, neste período, surgiram as relações endogâmicas, caracterizadas pelas uniões matrimoniais entre parentes, como os casamentos reais entre irmãos ou meios-irmãos.

Assim, tendo o mito como referência, o rei seria aquele que nascia da própria relação entre a rainha (divinizada como a deusa Ísis) e o faraó (filho do deus Rá). A partir do nascimento de novos descendentes, estes passariam a possuir a natureza divina antes pertencentes aos pais.

No período do Reino Antigo, o território egípcio estava unificado e o poder centralizado nas mãos do faraó. Este era responsável por administrar as terras e os homens, era o chefe da religião e dos cultos, sendo considerado o próprio deus na terra. Além disso, ele era responsável pela administração do território e construções públicas.

Para o controle administrativo, o território era dividido em 42 nomos, administrados pelos nomarcas (funcionários públicos que respondiam ao faraó). Os cargos importantes, como o de Vizir, eram ocupados por filhos ou netos reais. A legislação deste período tinha caráter divino, baseado na deusa da justiça e da verdade (Maat).

A arte do Reino Antigo teve reformas significativas, principalmente na arquitetura funerária. Foi durante a IV dinastia que o complexo de Gizé foi organizado. Construído por Khufu (Quéops) 2551-2528, Khaf-Rá (Quefren) 2520-2494 e Menkaurá (Miquerinos) 2490-2472, além das três pirâmides encontra-se na região a grande esfinge e inúmeras tumbas de altos funcionários, conhecidas como mastabas.

Antes das três famosas pirâmides, o faraó Snefru (2575-2551 a.c) construiu três pirâmides em seu nome, a pirâmide Meidum (começada por Huni, da III dinastia e finalizada por Snefru, da IV dinastia), a pirâmide romboidal (pirâmide curvada, a única construída neste formato) e a pirâmide vermelha, esta última ficou conhecida como a primeira pirâmide de faces lisas. As pirâmides da IV dinastia eram mais numerosas em quantidade, porém não apresentavam decoração nas paredes internas.

A construção das pirâmides está diretamente ligada a solarização da monarquia, pois esta forma arquitetônica representava o primeiro monte de terra a surgir durante a criação do mundo e, por isso, um símbolo solar. Além das pirâmides, as mastabas evidenciam, através de sua iconografia, a realidade deste contexto histórico, pois trazem informações bibliográficas do proprietário da tumba. Como exemplo desta produção artística das mastabas, tem-se a estela funerária de ladrilhos do arquiteto real, Upemnefert. Esta estela, além de retratar seus cargos e homenagear os deuses, traz informações de algo bom que ele fez em vida, por exemplo, Upemnefert era superior dos pescadores. 

Por fim, a decadência do período do Reino Antigo ocorreu a partir do reinado de Pepi II (2246-2152) por conta da deterioração das relações externas do Egito com a Baixa Nubia e Punt. Outro ponto foi o aumento da fome ocasionado por uma série de desastrosas inundações baixas, o surgimento de fatores que implicaram no crescimento do índice de mortalidade e o conturbado período de transição de sucessão do faraó.


Figura 1Complexo funerário de Gizé, Wikimedia commons, autor: Theklan. Disponível em:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gizah_complex_from_the_plane.jpg.


Figura 2 Esfinge de Gizé, vista lateral. Foto: Dan Breckwoldt / Shutterstock.com, imagem disponível em: https://www.infoescola.com/civilizacao-egipcia/esfinge-de-gize.

Figura 3 Estela de Upemnefert. Retirado de slab stelae of the Giza Necropolis, “Painting of the slab stela of Wepemnefret (from g 1201) by Norman de Garis Davies, on behalf of the Hearst Egyptian Expedition, March, 1905. Photograph courtesy Museum of Fine Arts, Boston”.

Referências

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico: Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

BAINES, John; MÁLEK, Jaromír. A civilização egípcia. Edição Brasileira. Folio. Barcelona. 2008.

GORLINSKI, Virginia. Pepi II: Rei do Egito. Britannica. Seção história e sociedade. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Pepi-II. Acesso em: 16 de ago. 2023.

SILVA, Daniela Neves. A arte egípcia. História do mundo. Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/imprimir/280. Acesso em: 08 de ago. 2023.

MANUELIAN, Peter Der. SLAB STELAE OF THE GIZA NECROPOLIS. He Pennsylvania–Yale Expedition to Egypt, New Haven and Philadelphia, n. 7, p. 1-279, 2003.

O Período de Nagada

Por Fernanda Beatriz Marques Machado – monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

Nagada – ou Naqada – é o nome dado a um dos períodos cronológicos da história egípcia referente ao pré-dinástico. O nome foi atribuído pelo arqueólogo Flinders Petrie (1853 – 1942) em relação ao local de mesmo nome, onde encontrou cerca de três mil tumbas, na região do Alto Egito, na margem ocidental do Nilo. Além disso, Nagada é o nome que se dá a uma das culturas que demonstram a evolução e as interações complexas de uma sociedade nascente. No local foram encontrados diversos vasos de cerâmica que foram usados como base para definir a cronologia e conhecer a cultura desse período.

Petrie é intitulado pai do estudo do Egito Pré-Histórico, pois foi a partir de suas descobertas e análises sobre a cultura material que nasceu a possibilidade de compreender com maior precisão como era o estilo de vida das pessoas que se estabeleceram naquela região há mais de seis mil anos. Essa análise foi concebida a partir da observação que permitiu o estabelecendo da evolução do desenvolvimento urbano a partir de artefatos – quanto mais detalhado (com alças para segurar ou estéticas para decoração), mais avançado seria o design, logo a dedução de que foram produzidos em um período mais recente.

Ele estabeleceu três fases dentro desse período: Nagada I ou Amratense (4.000 a.C – 3.500 a.C), Nagada II ou Gerzeano (3.500 a.C – 3.100 a.C) e Nagada III ou Dinastia 0 (3.100 a.C. – início do Período Dinástico). Essa separação se dá a partir da observação do material arqueológico que demonstra a evolução da organização humana em sociedade, principalmente naqueles que foram coletados nos sítios arqueológicos de Hierakonpolis, Naqada e Abydos.

Na cultura Amratense, é possível visualizar uma clara diferença em relação ao período Badariano – anterior ao Nagada – através da diversidade dos tipos de sepulturas e bens funerários, indicando o começo de uma tradição da construção de um enxoval funerário – simbolizando a existência de hierarquias nessa sociedade. Mesmo sendo característicos, esses enxovais se baseavam em simples objetos colocados ali para registrar o nome do indivíduo. Essa fase é simbolizada pelos vasos de cerâmica vermelha com desenhos em branco, na maior parte das vezes com formas geométricas ou animais, como hipopótamos, crocodilos, lagartos, flamingos, escorpiões, gazelas, girafas, equinos, bovinos e vegetação. A partir disso, é possível ter ideias sobre a forma que esses povos viviam, e, embora não seja possível afirmar qual era o sistema econômico, já é percebida a criação de animais usados tanto para consumo próprio quanto para rituais religiosos – a principal figura religiosa é representada pelo deus Seth.

Na segunda fase, Gerzeano, além da extensão territorial de norte (Minshat Abu Omar) a sul (Núbia), os detalhes se tornaram mais importantes, onde as descrições de símbolos para as representações de pictogramas, que seriam reconhecidos posteriormente como precursores de técnicas de escrita, se tornam mais presentes. Tais elementos são visualizados tanto nas tumbas, que possuem maiores informações sobre o proprietário e ganharam maiores proporções, quanto nos vasos de cerâmica – em sua maioria, em cores ocre e rosadas, pintadas em vermelho, marrom ou preto; ornamentadas com pinturas e feitas em formatos mais distintos e específicos, com formas de animais ou simples, redondos ou ovais. Esse período é marcado pelo constante aparecimento de barcos em representações artísticas e pelo uso de linhas onduladas ou circulares nos vasos em especifico, que Petrie classificou em três tipos: sinais S, Z ou N. O N é mais marcante, pois, representa a água, fator principal de sobrevivência naquela região e que ganhou imenso destaque nas representações de artefatos dessa fase, além da forma geométrica triangular – muito semelhante ao uso do sinal N – ser constantemente usada para simbolizar montanhas que já possuíam valor religioso e cultural para as populações locais.

É possível perceber a construção inicial de uma divisão mais específica nessa sociedade, com artesãos que trabalhavam e produziam peças únicas para pessoas de maior escalão social, já demostrando uma economia de mercado artesanal. Esta compreendia vasos de cerâmica, cestos, utensílios de marfim, pedras preciosas e metais – com destaque ao cobre. Também nessa fase, os locais de irrigação natural ao redor do Nilo se tornaram um privilégio, onde o acesso pertencia as pessoas da nova elite, além do sistema de plantio e criação de animais – e a caça – que se estabeleceram desde o período Nagada I.

A terceira e última fase, popularmente conhecida com Nagada III, foi o curto período de tempo entre essa evolução social até o início do Período Dinástico, caracterizado pela tensão entre o Alto e Baixo Egito e a então unificação dos dois territórios – representado de forma artística pela Paleta de Narmer – dando origem à Dinastia 0. Nesse período houve misturas culturais e econômicas nas duas regiões, gerando estratificação social, estabelecendo diferentes funções para cada grupo e trazendo de forma mais veemente a centralização política e a construção do Estado egípcio, com o reinado de Narmer, primeiro rei do Egito.

Tigela com linhas brancas cruzadas com quatro pernas. Período: Pré-dinastico, Nagada I tardio – inicio Nagada III Data: 3.700 a. C – 3.500 a. C https://www.metmuseum.org/art/collection/search/547266?ft=naqada+I+period&amp;offset=40&amp;rpp=40&amp;pos=79

Tigela com linhas brancas cruzadas com quatro pernas. Período: Pré-dinastico, Nagada I tardio – inicio Nagada III Data: 3.700 a. C – 3.500 a. C https://www.metmuseum.org/art/collection/search/547266?ft=naqada+I+period&amp;offset=40&amp;rpp=40&amp;pos=79

Vaso de cerâmica decorada retratando ungulados e barcos com figuras humanas. Período: Pré-dinástico, Naqada II tardia. Data: 3500 a. C – 3300 a.C. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/545755.

Vaso de cerâmica decorada retratando ungulados e barcos com figuras humanas. Período: Pré-dinástico, Naqada II tardia. Data: 3500 a. C – 3300 a.C. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/545755.

Selo de jarro impresso com o nome da Rainha Neithhotep. Período: início Período Dinástico, Reinado: reinado de Aha. Data: 3100 a.C. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/551832?ft=period+naqada+lll&amp;offset=0&amp;rpp=40&amp;pos=1

Selo de jarro impresso com o nome da Rainha Neithhotep. Período: início Período Dinástico, Reinado: reinado de Aha. Data: 3100 a.C. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/551832?ft=period+naqada+lll&amp;offset=0&amp;rpp=40&amp;pos=1

Referências

 

SHAW, Ian. The Oxford history of ancient Egypt. Oxford University Press, USA; Illustrated edição, 19 fevereiro de 2004.

TIRADRITTI, Francisco. Tesouros do Egito: do museu egípcio do Cairo. Editora Manole; 1ª edição, 17 novembro de 2000.

TORRADO, Elena de Gregorio. Decoraciones pintadas em las cerámicas predinásticas del período de Nagada II: análisis de los diseños. Universidad Autónoma de Madrid, Boletín de la Asociación Española de Egiptología. N⁰ 13, 2003.

Pré-dinástico: O período Badariano

Por: Celi Zinher Tsvetch – monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

Para questões de localização cronológica, o período pré-dinástico foi posterior ao Neolítico, e antecedeu o início da monarquia egípcia. Ele é dividido em épocas culturais, caracterizadas por culturas protodinásticas que não foram uniformes no território egípcio, sendo uma delas a cultura de Badari, com sua existência por volta de 5500 a 4200 a.C. O nome dessa cultura remete a cidade de El-Badari, que se localiza nas margens do rio Nilo, região que majoritariamente foram encontrados os vestígios sobre essa sociedade. Cerca de seiscentos túmulos e quarenta assentamentos, instalados predominantemente no Médio Egito, já prefiguravam o mundo dos mortos do Egito Faraônico.

Esse período é o primeiro em que há a confirmação da agricultura no Alto Egito, com predominância de plantas como o trigo, cevada e lentilhas. Além disso, essa cultura praticava um modo de vida de subsistência mista, já que a caça desempenhava também um papel importante no dia a dia da sociedade, além da agricultura e da pecuária. Os vestígios deixados por esse povo são basicamente cemitérios no baixo deserto, que se caracterizam por enterros simples. Os bens funerários encontrados indicam uma estratificação social, já que havia a distribuição desigual de riquezas e os túmulos mais ricos ficavam separados do restante. Essa estratificação ainda aparece de maneira limitada, já que ela só se tornou mais significativa no Período de Nagada.

Um elemento bastante característico da cultura Badariana é a cerâmica encontrada junto aos sepultamentos, esses objetos são principalmente xícaras e tigelas, todas feitas a mão, com argila do rio Nilo. A cerâmica normalmente não é decorada, mas ocasionalmente existem figuras geométricas, porventura imitando a cestaria. Itens pessoais como grampos de cabelo, pentes e pulseiras também são encontrados. Pelos vestígios deixados pela cerâmica, é possível concluir que os ceramistas badarianos se dedicavam em refinar a argila, já que os objetos feitos são bastante finos, de uma forma que não foi igualada em outra época do passado do Egito Antigo.

Os assentamentos encontrados dessa cultura, por serem muito leves, indicam que possivelmente eram construções temporárias, talvez acampamentos sazonais. Os locais de moradia e desenvolvimento da população deveriam se localizar próximos da planície de inundação do Nilo, que com o tempo e com as mudanças no trajeto do curso de água, foram arrastados pelo rio. Há a confirmação de que essa população já desenvolvia contato com outras localidades, pois foram encontradas conchas marinhas do Mar Vermelho nos túmulos badarianos, além de minério de cobre que pode ter sua origem no Deserto Oriental ou no Sinai.

Como é atestado com essa cultura, a hierarquização da sociedade egípcia já surge desde o período pré-dinástico. Algumas das tumbas do período badariano indicam a existência de diferentes tipos de elites durante o período aqui analisado, sendo eles religioso, militar e político-administrativo. É importante mencionar também, que o território badariano e a região da Núbia, atual Sudão, no contexto aqui estudado, era habitado por uma mesma população, que com o tempo foi se diferenciando e afastando. O Egito pré-dinástico, recebeu diversas influências como do Saara e do interior africano, ao Sul, o que resultou posteriormente no surgimento da monarquia faraônica egípcia, que se caracterizou pela unidade administrativa.

Referência das imagens:

HAYES, William C. 1953. Scepter of Egypt I: A Background for the Study of the Egyptian Antiquities in The Metropolitan Museum of Art: From the Earliest Times to the End of the Middle Kingdom. Cambridge, Mass.: The Metropolitan Museum of Art.

Links dos objetos:

Cordão: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/557613?ft=badarian&amp;offset=0&amp;rpp=40&amp;pos=7

Tigelafunda: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/557591?ft=badarian&amp;offset=0&amp;rpp=40&amp;pos=6

 

Tigela: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/551018?ft=badarian&amp;offset=0&amp;rpp=40&amp;pos=8

 

Referências:

BAINES, John. MÁLEK, Jaromír. A Civilização Egípcia. Coleção Grandes civilizações do passado. Barcelona: Ediciones Folio, 2008.

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico: Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

CARVALHO, Alexandre Galvão. Novas interpretações sobre as condições de surgimento do Estado no Egito Antigo. PHOÎNIX, Rio de Janeiro: 152-167p., 2021. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/phoinix/article/download/49102/26795 Acesso em: 01 jun. 2023.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo. 1° edição, L&PM Pocket Encyclopaedia, 2009.

LOPES, Nei. Dicionário da antiguidade africana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

SHAW, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. 1° edição, United States, New York: Oxford University Press, 2003.

Beni Hassan – Tumba de Amenemhat

Orlando Vinicius Buratto Cordeiro – Monitor do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

Localizado na fértil região de Al-Minya, se encontra o cemitério de Beni Hassan – c. de 200 quilômetros do Cairo. A necrópole é constituída por duas áreas, sendo a inferior, que contém 800 tumbas, com a maioria em formato de poço e datando do Reino Antigo até o Reino Médio (2575 a.C. – 1640 a.C.); e a superior, que contém 39 túmulos, escavados na rocha de forma horizontal, contendo alguns dos jazigos mais ricos e bem preservados do Reino Médio. Entre eles, está a tumba de Amenemhat, que foi último a possuir o título de “nomarca” do 16° nomo (região) do Alto Egito.

Amenemhat viveu no início da XII Dinastia (1991 a.C – 1783 a.C.), uma época de grande riqueza material para a nobreza egípcia e para os funcionários do Estado. Essa ascensão econômica beneficiava de forma proporcional esses dois grupos, se estendendo desde o faraó até o escriba. A opulência desse período pode ser atestada no alto detalhamento de decorações nos túmulos de oficiais, vizires e altos funcionários, especificamente os de Beni Hassan, com cenas de caça, pesca, agricultura e produção artesanal em massa ricamente produzidos.

Sendo o último nomarca (governador) da cidade (nomo) de Oryx, Amenenhat atuou por 25 anos, governando a cidade no reinado do faraó Senusret I (1971 a.C. – 1926 a.C.), o segundo monarca da dinastia. Como um alto funcionário administrativo, Ameny – como era usualmente chamado – se beneficiou da opulência do período, o que se traduz na impressionante fachada da sua tumba, muita parecida com as entradas internas dos templos. Ela apresenta duas colunas que foram esculpidas na própria rocha e sustentam uma espécie de marquise, também escavada na rocha.

Dentro do recinto, podemos destacar o grande número de representações existentes nas paredes. Observa-se cenas de luta corporal e de combates armados entre soldados e guerreiros, há imagens de pesca com redes, pastoreio de gado, confecção de objetos, engarrafamento de vinho e cenas de caça, principalmente ao Órix (espécie de antílope), sendo o animal que dá nome a cidade. Encontra-se no final da tumba uma pequena capela recortada na rocha, e nesse santuário é possível observar a estátua funerária de Amenemhat no centro, e duas estátuas, uma de sua mãe, Henu, e uma de sua esposa Hetepet. Tal local era destinado a prestação de oferendas ao morto. Geralmente contendo apenas a estátua do dono da tumba, o grupo escultórico transmite o nível de riqueza do governante da região, uma vez que Ameny mandou produzir estas três estátuas funerárias para o mesmo recinto.

Foto: Imgur. Consulta em: https://imgur.com/cO6Cn8B

Foto: Antiquities, Ministry of Tourism and. The tombo f Amenemhat. Consulta em: https://egymonuments.gov.eg/en/monuments/the-tomb-of-amenemhat

 

REFERÊNCIAS:

BRANCAGLION, Antonio. Quadro Cronológico Lista de Reis, Laboratório Seshat – Museu Nacional/UFRJ. Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.academia.edu/36222181/CRONOLOGIA_EG%C3%8DPCIA_QUADRO_CRONOL%C3%93GICO_LISTA_DE_REIS. Acesso em: 19 abr. 2023.

Beni Hassan. Ministry of Tourism and Antiquities. Disponível em: https://egymonuments.gov.eg/en/archaeological-sites/beni-hasan. Acesso em: 19 abr. 2023.

The Tomb of Amenemhat. Ministry of Tourism and Antiquities. Disponível em: https://egymonuments.gov.eg/en/monuments/the-tomb-of-amenemhat. Acesso em: 19 abr. 2023.

Tumba de Baqeet III – Beni Hassan

Baqeet III foi sucessor de seu pai Ramushent. Atuou como oficial egípcio e nomarca durante a XI dinastia no Reino Médio (2040-1640 aC.). Os nomarcas eram oficiais delegados pelo poder central para chefia de pequenas parcelas de territórios egípcios. Sob sua autoridade eram colocadas as principais decisões sobre o nomo, mas ainda assim estavam sujeitos ao poder do faraó. O nomo que Baqeet III chefiou foi o 16º do Alto Egito, denominado Oryx. Além de nomarca, desempenhou a função de tesoureiro do Baixo Egito.

O período em que Baqeet III chefiou o nomo Oryx foi uma fase notavelmente confusa enfrentada pela sociedade egípcia, no qual um lento declínio do poder real gerou o enfraquecimento da unidade e do controle do norte do território, favorecendo assim a emergência de poderes locais que possibilitaram aos nomarcas desfrutarem de um alto nível de independência, agindo como governantes autônomos.  

Durante esse período, o conflito entorno do poder central se disputava entre dois poderes: a monarquia heracliopolitana e a monarquia tebana. Em meio a esse cenário, os nomos se posicionavam também em defesa de seus interesses. Baqeet III, astuciosamente, ao perceber que a vitória se inclinava fortemente aos príncipes tebanos liderados Montuhotep II, quebrou a neutralidade de seu nomo e posicionou-se a favor dos tebanos, possibilitando através de sua lealdade aos vitoriosos, a sucessão da chefia do nomo Oryx para seus descendentes até a época de Amenemhat I.  

A tumba do nomarca Baqeet III se encontra localizada no complexo funerário de Beni Hassan, situado ao sul de Al-Minya, e na margem direita do Nilo. A disposição especial do local se divide em duas necrópoles, a superior e a inferior, contando com oitocentos e oitenta e oito túmulos na necrópole inferior, e trinta e nove na superior, mesmo sendo local criado para sediar membros da nobreza. A disposição do local era hierarquizada, estava associada a posição e aos recursos que o morto contava, sendo que os mais importantes eram enterrados no topo, e os menos na área inferior.

Como membro da alta nobreza egípcia, por conta de sua posição social e política como nomarca, o corpo de Baqeet III foi localizado na tumba XV da necrópole superior, entre as trinta e nove sepulturas de nomarcas do nomo Oryx, que governaram durante o Reino Médio (2040 a.C a 1640 aC.). Alinhadas em um eixo norte-sul, as tumbas neste local contavam com uma grande extensão, escavadas na rocha, ricamente decoradas e esculpidas, e exibindo em algumas delas inscrições biográficas e pinturas de cenas da vida cotidiana da sociedade egípcia.

A arte egípcia não era realizada livremente a partir de aspirações individuais. Havia intencionalidades determinadas em suas criações, com fins religiosos e mágicos ou mesmo para retratar uma imagem que o falecido deseja exibir de si. Dessa forma, as cenas de membros da alta nobreza eram cuidadosamente organizadas a fim de enfatizar uma mensagem. Como cada período carrega seu próprio estilo artístico, ao analisar as representações devemos observá-las dentro de seu contexto histórico. Como já vimos, o período de governo de Baqeet III foi marcado por grande instabilidade e conflitos e, em sua tumba, é possível observar iconografias do nomarca e sua esposa, da sua vida cotidiana, da atividade da caça, de lutas e cenas mais incomuns de serem representadas, como de castigos.

Na cena da parede oriental, há um impressionante número de posições e técnicas de luta livre, todos em poses diferentes. É possível observar em cada par de lutadores, que um deles foi pintado de vermelho e o outro de castanho escuro, talvez para que a interação entre eles pudesse ser vista claramente.

Cena de punição de uma mulher enquanto amamenta um bebê

No extremo poente da parece sul, na cena principal que representa as punições entre as iconografias incomuns de castigos, observa-se uma mulher sendo punida enquanto amamenta. A mulher é retratada sentada e segurando uma criança contra o peito, enquanto na frente dela está um homem que parece estar puxando sua cabeça com a mão esquerda, com a mão direita pronta golpeá-la com um bastão. O espancamento com bastão era um método aprovado para punições e interrogatórios, femininos ou masculinos, porém, não eram frequentemente representadas. A cena mencionada é ainda mais incomum, pois demonstra a punição de uma mulher que está amamentando, e esta era uma atividade apreciada e respeitada na sociedade egípcia, sendo inclusive uma profissão exercida até por mulheres importantes.

As cenas incomuns representadas tornam a tumba de Baqeet III única, sugerindo, por meio da iconografia, a natureza implacável do nomarca, manifestada também nas inscrições de seu tumulo: “Smiter dos plebeus”. Com a principal função destacá-lo como nomarca capaz de controlar e administrar seu nomo, as imagens expressam o máximo do poder do governante, servindo de alerta ao povo por meio das representações incomuns de castigos. Mostravam que qualquer um poderia ser punido, refletindo também uma demanda da época, que exigia fortes governantes para defender seus territórios de ataques externos, e para controlar conflitos internos.

Referências Bibliográficas:

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico -Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

COLLOFF, Jake. 2021. Reinterpreting the Griffins of the Middle Kingdom. Res Antiquitatis 3: 2-24. Disponível em: <https://cham.fcsh.unl.pt/RES/index.html> Acesso em: 15 de maio.2023.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo: Uma breve introdução. L&PM Pocket Encyclopaedia, 2009.

FARAMAN, Ahmed Faraman. Peculiar Punishments from the Tomb of Baqet III At Beni Hassan. Egyptian Journal of Chemistry, 2019. <https://journals.ekb.eg/article_144978.html) Acesso em: 15 de maio.2023.

Texto por: Rafaela Gouvea deSouza – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon