A tumba de Kha e Merit Manueli De Souza Oliveira – Monitora do Museu Egípcio & Rosacruz Tutankhamon O Egito Antigo sempre carregou seus mistérios, os quais impactaram e continuam impactando o mundo todo, principalmente quando tratamos de seus inúmeros artefatos arqueológicos, templos, pirâmides, e, sobretudo, tumbas e sarcófagos. Estes últimos são importantes pois guardam informações valiosas da pessoa que ali permanece, seja ela da alta ou baixa sociedade. As tumbas não são apenas simples construções, mas portais para uma vida após a morte e uma aproximação maior com seus deuses [imagem 1]. Portanto, além de uma tradição muito complexa, os túmulos e os sarcófagos eternizam-se como o livro aberto da pessoa que ali descansa e dão a essa alma uma conexão para a jornada épica além da vida chamada de Duat – até encontrar o descanso e a eternidade dos merecedores. No foco do deserto egípcio, podemos observar o Vale dos Reis, sede das maiores e mais conhecidas tumbas egípcias, como as pertencentes aos faraós Tutankhamon, Tothmes I e Ramsés X, as quais predominantemente pertenciam ao Reino Novo (1550 a.C. a 1070 a.C.) – um dos períodos da antiguidade egípcia com intensa expansão e abertura cultural. Porém, o Vale dos Reis não é o único lugar em que encontram-se as importantes descobertas funerárias. Outros locais também são de extrema importância para os estudos e descobertas arqueológicas, como o vilarejo de Deir el-Medina, no Egito. A vila de Deir el-Medina foi um imprescindível sítio arqueológico que ajudou vários historiadores arqueólogos com seus achados, como é o caso de Arthur Weigall (1880 – 1934) e Ernesto Schiaparelli (1856 – 1928), que descobriram uma tumba na região considerada uma das maiores descobertas do Egito antigo em 1906. Ali, encontraram um túmulo do Reino Novo que estava intacto até seu descobrimento, o qual abrigava o casal Kha e Merit [imagem 3]. Essas duas figuras históricas ficaram conhecidas mundialmente por serem um casal com uma vida comum e não ligada à realeza da época. Também se destacaram por seus pertences, que evidenciaram suas rotinas, os quais se mantiveram intactos até a época de sua descoberta [imagem 5]. O que mais chamou atenção dos arqueólogos e historiadores que os estudaram foram os mais de 500 artefatos ligados à vida cotidiana e ritos funerários encontrados no local, sem nenhum sinal de saqueamento, o que os permitiu analisar a vida privada no Egito antigo. Dentre os numerosos objetos, o que mais obteve destaque foi a máscara funerária de Merit [imagem 4], que evidenciava delicadeza e beleza, tornando-se uma das peças mais célebres do Museu Egípcio de Turim, na Itália – instituição onde estão os artefatos encontrados na tumba de Kha e Merit. Ainda, descobriu-se que Kha foi um supervisor em Deir el-Medina muito respeitado em sua época, responsável por diversos projetos arquitetônicos concluídos durante os reinados de Amenhotep II, Tothmes IV e Amenhotep III, o que lhe assegurou prestígio e riqueza. Sendo um casal, as personagens servem de exemplo para entender o instituto que concerne o casamento. Para os egípcios antigos, o matrimônio não era mero ato corriqueiro e simples, mas considerado um ideal social cujo desenvolvimento harmonioso dependia exclusivamente dos seus noivos e que devia ter por objetivo seguir o caminho de Maat, a deusa da justiça e da retidão, como destaca Poliane Vasconi dos Santos (2005 pág. 3). Essa concepção está muito ligada com a ideia de que a fidelidade é o primeiro passo para que essa manutenção seja mantida, sendo o adultério um crime inaceitável e mal visto pela sociedade. Portanto, fica claro que a tumba de Kha e Merit [Imagem 2] revelou que o Egito Antigo não se limita somente ao extraordinário do faraó e da realeza, mas também preservou a memória e o cotidiano de indivíduos que, embora não fossem reis, tinham sua importância na sociedade. Assim, a tumba não permanece apenas como um marco arqueológico, mas também como um testemunho vivo da riqueza do Egito, que continua fascinando toda a humanidade. Imagem 1: Cena da parede do túmulo do vizir Mereruka que viveu na IV dinastia Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/en/archive/saqqara/tombs-ofnobles/19th-century-pictures/?ff=1&photo=Album2_005 Acesso em 03 de setembro de 2025. Imagem 2: Vista externa da capela funerária de Kha e Merit. Escavações de Schiaparelli Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02053 Acesso em 25 agosto de 2025. Imagem 3: Túmulo intacto de Kha e Merit. O corredor que leva à câmara funerária (está parcialmente bloqueado por uma parede). Fotografia tirada no momento da descoberta. Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02040 Acesso em 25 de agosto de 2025 Imagem 4: Máscara funerária dourada de Mérit, ainda repousando sobre a múmia da mulher. Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02052 Acesso em 25 de agosto de 2025. Imagem 5: Transportando os objetos funerários de Kha e Merit para fora do túmulo logo após a descoberta. Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02004 Acesso em 25 de agosto de 2025. Bibliografia: DESPLANCQUES, S. Egito Antigo. [s.l.] L & PM Pocket, 2009. SHAW, G. J. Os mitos egípcios. [s.l.] Editora Vozes, 2023. VERCOUTTER, J. Em Busca Do Egito Esquecido. [s.l.] Editora Objetiva, 1998. O HISTORIADOR. Introdução À Egiptologia. [s.l.] Clube de Autores, 2021. SILVA, Josiane. O papiro erótico de Turim e os espaços do cotidiano no Egito Antigo. Disponível em: http://edufrn.ufrn.br/bitstream/123456789/654/1/O%20PAPIRO%20ERÓTICO%20DE%20TURI M%20E%20OS%20ESPAÇOS%20DO%20COTIDIANO%20NO%20EGITO%20ANTIGO.%20SILVA%2 C%20Josiane%20Gomes.%202013..pdf Acesso em: 19 ago. 2025. DOS SANTOS, Poliane Vasconi. A MULHER E A INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO EGITO ANTIGO: DA LIBERDADE ÀS RESTRIÇÕES MORAIS. Disponível em: https://mail.anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019- 01/1548206569_cc30cc5b29a13fc3e03a78a8b7f6645c.pdf Acesso em: 29 ago. 2025. The Valley Of The Kings. Disponível em: https://www.ancient-egypt-online.com/valley-of-thekings.html#google_vignette Acesso em: 10 jan. 2026.


