A Tumba de Kha e Merit

A tumba de Kha e Merit Manueli De Souza Oliveira – Monitora do Museu Egípcio & Rosacruz Tutankhamon O Egito Antigo sempre carregou seus mistérios, os quais impactaram e continuam impactando o mundo todo, principalmente quando tratamos de seus inúmeros artefatos arqueológicos, templos, pirâmides, e, sobretudo, tumbas e sarcófagos. Estes últimos são importantes pois guardam informações valiosas da pessoa que ali permanece, seja ela da alta ou baixa sociedade. As tumbas não são apenas simples construções, mas portais para uma vida após a morte e uma aproximação maior com seus deuses [imagem 1]. Portanto, além de uma tradição muito complexa, os túmulos e os sarcófagos eternizam-se como o livro aberto da pessoa que ali descansa e dão a essa alma uma conexão para a jornada épica além da vida chamada de Duat – até encontrar o descanso e a eternidade dos merecedores. No foco do deserto egípcio, podemos observar o Vale dos Reis, sede das maiores e mais conhecidas tumbas egípcias, como as pertencentes aos faraós Tutankhamon, Tothmes I e Ramsés X, as quais predominantemente pertenciam ao Reino Novo (1550 a.C. a 1070 a.C.) – um dos períodos da antiguidade egípcia com intensa expansão e abertura cultural. Porém, o Vale dos Reis não é o único lugar em que encontram-se as importantes descobertas funerárias. Outros locais também são de extrema importância para os estudos e descobertas arqueológicas, como o vilarejo de Deir el-Medina, no Egito. A vila de Deir el-Medina foi um imprescindível sítio arqueológico que ajudou vários historiadores arqueólogos com seus achados, como é o caso de Arthur Weigall (1880 – 1934) e Ernesto Schiaparelli (1856 – 1928), que descobriram uma tumba na região considerada uma das maiores descobertas do Egito antigo em 1906. Ali, encontraram um túmulo do Reino Novo que estava intacto até seu descobrimento, o qual abrigava o casal Kha e Merit [imagem 3]. Essas duas figuras históricas ficaram conhecidas mundialmente por serem um casal com uma vida comum e não ligada à realeza da época. Também se destacaram por seus pertences, que evidenciaram suas rotinas, os quais se mantiveram intactos até a época de sua descoberta [imagem 5]. O que mais chamou atenção dos arqueólogos e historiadores que os estudaram foram os mais de 500 artefatos ligados à vida cotidiana e ritos funerários encontrados no local, sem nenhum sinal de saqueamento, o que os permitiu analisar a vida privada no Egito antigo. Dentre os numerosos objetos, o que mais obteve destaque foi a máscara funerária de Merit [imagem 4], que evidenciava delicadeza e beleza, tornando-se uma das peças mais célebres do Museu Egípcio de Turim, na Itália – instituição onde estão os artefatos encontrados na tumba de Kha e Merit. Ainda, descobriu-se que Kha foi um supervisor em Deir el-Medina muito respeitado em sua época, responsável por diversos projetos arquitetônicos concluídos durante os reinados de  Amenhotep II, Tothmes IV e Amenhotep III, o que lhe assegurou prestígio e riqueza. Sendo um casal, as personagens servem de exemplo para entender o instituto que concerne o casamento. Para os egípcios antigos, o matrimônio não era mero ato corriqueiro e simples, mas considerado um ideal social cujo desenvolvimento harmonioso dependia exclusivamente dos seus noivos e que devia ter por objetivo seguir o caminho de Maat, a deusa da justiça e da retidão, como destaca Poliane Vasconi dos Santos (2005 pág. 3). Essa concepção está muito ligada com a ideia de que a fidelidade é o primeiro passo para que essa manutenção seja mantida, sendo o adultério um crime inaceitável e mal visto pela sociedade. Portanto, fica claro que a tumba de Kha e Merit [Imagem 2] revelou que o Egito Antigo não se limita somente ao extraordinário do faraó e da realeza, mas também preservou a memória e o cotidiano de indivíduos que, embora não fossem reis, tinham sua importância na sociedade. Assim, a tumba não permanece apenas como um marco arqueológico, mas também como um testemunho vivo da riqueza do Egito, que continua fascinando toda a humanidade. Imagem 1: Cena da parede do túmulo do vizir Mereruka que viveu na IV dinastia Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/en/archive/saqqara/tombs-ofnobles/19th-century-pictures/?ff=1&photo=Album2_005  Acesso em 03 de setembro de 2025.   Imagem 2: Vista externa da capela funerária de Kha e Merit. Escavações de Schiaparelli Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02053  Acesso em 25 agosto de 2025.   Imagem 3: Túmulo intacto de Kha e Merit. O corredor que leva à câmara funerária (está parcialmente bloqueado por uma parede). Fotografia tirada no momento da descoberta. Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02040 Acesso em 25 de agosto de 2025   Imagem 4: Máscara funerária dourada de Mérit, ainda repousando sobre a múmia da mulher. Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02052 Acesso em 25 de agosto de 2025. Imagem 5: Transportando os objetos funerários de Kha e Merit para fora do túmulo logo após a descoberta. Disponível em: https://archiviofotografico.museoegizio.it/it/archivio/area-tebana/deir-elmedina/tt8-tomba-e-cappella-di-kha-e-merit/?q=Kha&photo=C02004 Acesso em 25 de agosto de 2025. Bibliografia: DESPLANCQUES, S. Egito Antigo. [s.l.] L & PM Pocket, 2009. SHAW, G. J. Os mitos egípcios. [s.l.] Editora Vozes, 2023. VERCOUTTER, J. Em Busca Do Egito Esquecido. [s.l.] Editora Objetiva, 1998. O HISTORIADOR. Introdução À Egiptologia. [s.l.] Clube de Autores, 2021. SILVA, Josiane. O papiro erótico de Turim e os espaços do cotidiano no Egito Antigo. Disponível em: http://edufrn.ufrn.br/bitstream/123456789/654/1/O%20PAPIRO%20ERÓTICO%20DE%20TURI M%20E%20OS%20ESPAÇOS%20DO%20COTIDIANO%20NO%20EGITO%20ANTIGO.%20SILVA%2 C%20Josiane%20Gomes.%202013..pdf Acesso em: 19 ago. 2025. DOS SANTOS, Poliane Vasconi. A MULHER E A INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO EGITO ANTIGO: DA LIBERDADE ÀS RESTRIÇÕES MORAIS. Disponível em: https://mail.anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019- 01/1548206569_cc30cc5b29a13fc3e03a78a8b7f6645c.pdf Acesso em: 29 ago. 2025. The Valley Of The Kings. Disponível em: https://www.ancient-egypt-online.com/valley-of-thekings.html#google_vignette Acesso em: 10 jan. 2026.

Read More

A sucessão de Akhenaton

A sucessão de Akhenaton Por: Gabrielle Lenartevitz – monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon. Às margens do rio Nilo, há milhares de anos, floresceu uma das civilizações mais fascinantes da história: o Egito Antigo. Com suas paisagens naturais, logo se fortaleceu pela agricultura e claro, por sua cultura. A população egípcia era politeísta e adorava uma grande variedade de deuses ligados as cidades, funções humanas e natureza – como Anúbis, representado com a cabeça de um chacal[1] , se vinculando a mumificação. Cada cidade adorava sua divindade padroeira, ou principal, e o faraó atuava como intermediário entre os deuses e os humanos, garantindo uma harmonia coletiva do cosmos e a continuidade da vida, interpretados como a manutenção de Maat[2] (Figura1), ou seja, o equilíbrio entre a ordem cósmica dos deuses, a natureza e a própria civilização egípcia. Grandes templos do Egito, como Karnak e Luxor, serviam como um palco para rituais dessa cultura diversa e complexa, reafirmando o poder divino do faraó e consolidando a relação entre religião e política. A XVIII Dinastia (1550-1307 a.C.), parte do Reino Novo, destacou-se pela expansão territorial, riqueza e estabilidade. Akhenaton, conhecido originalmente como Amenhotep IV (figura 2), nasceu nessa dinastia e herdou o Egito próspero de seu pai, Amenhotep III. Akhenaton cresceu em um ambiente de prestígio e influência, moldando sua visão de autoridade e abrindo caminhos para seus futuros pensamentos enquanto Rei. Sua esposa, Nefertiti, desempenhou papel importante no reinado e esteve presente em diversas obras do período amarniano, acompanhando as mudanças religiosas e culturais.    Ao assumir o trono, Akhenaton promoveu mudanças consideradas radicais, concentrando o culto ao disco solar Aton (Figura 3), divindade associada à vida, fertilidade e energias divinas. Essa mudança religiosa representava uma enorme ruptura com o politeísmo tradicional e foi considerada uma forma de monolatria, onde apenas uma única tríade era adorada, sendo Aton, Nefertiti e o próprio Akhenaton, além de ser uma forma de Henoteísmo na qual Aton possuía as funções de todos os demais, como destaca Elvis Rodrigues (2008, p. 10). A própria arte no Egito antigo refletia essas transformações e retratava o faraó e sua família de forma mais realista e humanizada, como em cenas da sua vida cotidiana, rompendo com o estilo rígido e idealizado dos períodos anteriores. Dessa forma, Akhenaton incentivou um novo estilo artístico e um novo padrão de beleza. Anthony Janson (1996, p. 24) compara obras-primas do faraó com a sua esposa, Nefertiti, em que os contornos do rosto de Akhenaton deixam claro um abandono de técnicas mais ideais em prol de uma forma de realismo (Figura 4). Essa reforma impactou a vida dos egípcios, alterando diretamente seus cultos religiosos, porém a administração do Egito também sofreu. O clero de Amon [3]  (Figura 5) que anteriormente concentrava grande poder político e econômico, teve seus privilégios reduzidos. A centralização em torno de Aton gerou diversas tensões internas, problemas econômicos e militares surgiram devido à mudança da capital e as novas prerrogativas religiosas dificultaram a adaptação da população aos cultos recém-implementados.    A consolidação do projeto de Akhenaton aconteceu após a criação de uma nova capital, Akhetaton, a atual Tell el-Amarna, totalmente dedicada a Aton. Esta capital, demonstrando a nova era do Egito e uma nova ordem religiosa e administrativa, simbolizava o isolamento em relação as tradições que haviam governado o Egito por milênios. Após a morte de Akhenaton, Tutankhamon (Figura 6), seu filho, assumiu o governo com apenas nove anos de idade, com auxílio de conselheiros e sacerdotes sendo responsável por restaurar o culto tradicional a Amon, abandonando Amarna e retornando à antiga capital, Tebas. Com isso, todos os deuses antigos retornaram para os templos que agora reabriam. Assim, a restauração consolidou a autoridade do clero e iniciou o movimento para a estabilidade política e social. Apesar da restauração, Akhenaton e seus pensamentos não foram completamente esquecidos. Mesmo com boa parte de seu nome e imagens apagadas de monumentos (Figura 7), em um processo conhecido como damnatio memoriae[4], ele mudou para sempre a concepção de religião no Antigo Egito, impactando toda a classe de sacerdotes. A arqueologia moderna recuperou, em parte, sua história através das obras artísticas, arquitetônicas e literárias do período Amarna e da cidade de Akhetaton. Seu legado é amplamente estudado e reconhecido por suas características culturais e religiosas, inovação artística e capacidade de modificar tradições milenares. Seu sucessor, Tutankhamon, teve um curto reinado, retornando às antigas práticas e cultos religiosos e devolvendo a influência do clero de Amon após as reformas de Akhenaton. Embora breve, o governo de Tutankhamon se tornou um dos períodos mais conhecidos e debatidos da história egípcia. Referenciado como Rei menino de ouro, teve sua tumba descoberta durante uma expedição arqueológica no início do século XX. Entre os mais de cinco mil objetos encontrados em sua tumba, por Howard Carter, em 1922, boa parte em impressionante estado de conservação, estavam tesouros que revelam aspectos da vida, da religião e do cotidiano do Rei egípcio antigo, reavivando a memória do governante. [1] Chacal: animal da natureza egípcia, se localizava próximo a carcaças, vestígios de animais mortos, onde guardava aquela carne, se conectando com a morte e a mumificação egípcia. [2] Maat: deusa egípcia, representada com asas e uma pena na cabeça. Responsável pela justiça e equilíbrio de vida. [3] Amon: deus do Egito antigo, protetor dos faraós e rei dos deuses. [4] DEMNATIO MEMORIAE: “condenação da memória” na língua latina. No direito romano, indicava o apagamento de qualquer traço de lembrança de uma pessoa, com se jamais tivesse existido. Glossário Chacal: animal da natureza egípcia, se localizava próximo a carcaças, vestígios de animais mortos, onde guardava aquela carne, se conectando com a morte e a mumificação egípcia. Maat: deusa egípcia, representada com asas e uma pena na cabeça. Responsável pela justiça e equilíbrio de vida. Amon: deus do Egito antigo, protetor dos faraós e rei dos deuses. Demnatio Memoriae: “condenação da memória” na língua latina. No direito romano, indicava o apagamento de qualquer traço de lembrança de uma pessoa, como se jamais tivesse existido.

Read More

Sandálias do faraó Tutankhamon

Proveniência: Tumba de Tutankhamon – Vale dos Reis – Egito Período: Reino Novo – XVIII Dinastia – 1550 – 1307 a.C. A original encontra-se no Grande Museu Egípcio – Gizé – Egito. Dentre os diversos pares de sandálias encontradas na tumba de Tutankhamon este se destaca pela sua decoração, feita com folha de ouro pintada. Em ambas aparecem as figuras amarradas de dois inimigos tradicionais dos egípcios: núbios e asiáticos. Os personagens são individualizados, através das feições e cortes de cabelo, mas usam vestimentas semelhantes. Seus arcos completam o espaço restante da composição. A posição destas figuras neste par de sandálias não é obra do acaso, foi concebida para que os inimigos do faraó estivessem literalmente sob seus pés.

Read More

O Período de Nagada

Amenemhat viveu no início da XII Dinastia (1991 a.C – 1783 a.C.), uma época de grande riqueza material para a nobreza egípcia e para os funcionários do Estado.

Read More

Pré-dinástico: O período Badariano

Amenemhat viveu no início da XII Dinastia (1991 a.C – 1783 a.C.), uma época de grande riqueza material para a nobreza egípcia e para os funcionários do Estado.

Read More

A Tumba de Khnumhotep II

A tumba de Khnumhotep II se situa no sítio arqueológico de Beni Hassan, localizado próximo a cidade de El Minya.

Read More

Serapeum, o complexo funerário dedicado ao touro Ápis

Camila Czelusniaki– Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon O culto a animais sagrados no Egito Antigo remete desde o período pré-dinástico, em vista que se procurava adorar as forças ou potências divinas através de animais que simbolizavam as principais características, funções ou atributos dos deuses. O touro foi representado como animal sagrado em diversas civilizações da Antiguidade, com os egípcios antigos não foi diferente, em vista que vários de seus deuses são representados ou relacionados simbolicamente com a espécie bovina. Na Pedra Palermo, documento histórico do período pré-dinástico datado de 3100 a.c., há informações sobre o culto ao touro Apís, divindade relacionada a fertilidade, força, energia e virilidade. O Serapeum é um edifício dedicado ao culto do touro Apís e está localizado em Saqqara, a necrópole da antiga cidade de Menfís. Em Menfís acreditava-se que o touro Apís era a encarnação do deus Ptah, deus criador e patrono dos artesões. O animal que seria adorado como o deus, deveria apresentar uma lista de características que o identificaria, como por exemplo, ter uma pelagem preta, barriga e patas brancas e possuir uma mancha branca em formato de águia em seu dorso. O animal possuía tanta importância que após sua morte, havia um dia de luto nacional, ele também era mumificado e levado pelo caminho sagrado de Menfís até o Serapeum onde seria sepultado. O Serapeum foi descoberto em 1851 pelo arqueólogo Auguste Mariette, este se dirigiu em 1850 ao Egito com o objetivo de adquirir documentos coptas, siríaco, árabe e etíope para o Museu do Louvre, entretanto os monges negaram-se a vender. Desta forma, Mariette iniciou o processo de escavações em Saqqara, onde descobriu através de vestígios de esfinges, o Serapeum. Auguste Mariette em seu livro “La Serapeum de Memphis” relata que este local foi descrito pelo geografo Estrabão (século I d.C), o arqueólogo acreditava que este registro foi intencionalmente escrito para que 18 séculos mais tarde, o local pudesse ser encontrado. “’Encontra-se’, disse o geógrafo Estrabão (século I d.C.), ‘um templo de Serápis em um lugar tão arenoso que o vento amontoa as dunas de areia sob as quais vimos esfinges, algumas meio enterradas, outras enterradas até a cabeça, a partir do qual se pode supor que o caminho para este templo não poderia ser sem perigo se alguém fosse pego em uma tempestade de vento repentina’. Não parece que Estrabão escreveu esta frase para nos ajudar a redescobrir, depois de mais de dezoito séculos, o famoso templo dedicado a Serápis? Era impossível duvidar.” (MARIETTE 1882, pag.6). A primeira parte adentrada por Mariette e sua equipe, foi um pátio do templo, nesta escavação eles encontraram a estátua do escriba sentado datada 5°dinastia 2450-2325 a.C, ou 4°dinastia 2620-2500 a.C, esta estatua é considerada uma das mais famosas esculturas da história Egípcia. O caminho para a primeira galeria estava bloqueado por uma grande rocha, foram utilizados explosivos para acessar, abaixo desta rocha estava a múmia do filho de Ramsés II, príncipe Kaemuaset, este era sumo sacerdote de Ptah e administrador dos templos menfitas. Durante seu tempo como sumo sacerdote executou vários enterros do touro Apís no Serapeum. No ano 30 de Ramses II, Kaemuaset redesenhou o Serapeum, ele criou uma série de câmaras funerárias subterrâneas para o sepultamento de vários touros Apís. As câmaras funerárias possuíam inúmeras estelas dedicadas ao touro Apís com cenas iconográficas e escritas hieroglíficas. Os touros eram enterrados em sarcófagos de um único bloco de granito escuro ou quartzo amarelo, os quais medem 4 metros de altura e pesam entre 60 e 80 toneladas. Esta instalação possuía 24 sarcófagos, entretanto a maioria destes foram encontrados vazios, alguns contendo apenas ossos bovinos. Em 1852, ocorre a descoberta de uma galeria mais antiga conhecida como “grandes abobadas”, nesta os touros eram sepultados em sarcófagos de madeiras. No mesmo ano, Augusto Mariette descobre uma terceira série de sarcófagos, datadas do reinado do Faraó Amenofis III, da XVIII, até a XIX dinastia, nesta escavação encontraram dois caixões intactos do Apís VII e Apís IX, com estatuas shabtis, vasos canônicos e amuletos. O Serapeum continuou sendo utilizado até o período greco-romano. No final do século III d.C, com a ascensão do poder do imperador romano ocidental, Flavio Honório, o culto ao deus Apís foi banido.     Referências: DUNN, Jimmy. The Serapeum of Saqqara. Tour Egypt, disponivel em: http://www.touregypt.net/featurestories/serapeum.htm. Acesso: 20 de julho de 2022. STRINGFIXER. Khaemweset. Disponivel em: https://stringfixer.com/pt/Khaemwaset. Acesso: 21 de agosto de 2022 REDATOR, Fronteira da Paz. O Serapeum de Saqqara: Um Túnel Gigante de Luz?. 5 de agosto de 2021. Disponivel em: https://fronteiradapaz.com.br/site/2021/08/05/o-serapeum-de-saqqara-um-tunel-gigante-de-luz/. Acesso: 13 de agosto de 2022 MARIETTE, Auguste. Lá Serapeum de Menphis por Auguste Mariette-Pacha. 1822. BORISOV, Konstantin. The Serapeum of Saqqara. Alternative theory for the granite coffers. Disponivel em: https://www.academia.edu/download/57044374/Alternative_theory_for_the_granite_sarcophagus_ of_the_Serapeum_of_Saqqara_2.pdf. Julho de 2018. Acesso em: 26 de julho de 2022.

Read More

Alimentação e culinária no tempo dos faraós

Thais Chaiane Costa de Faria – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon A decifração dos hieróglifos, por Jean-François Champollion em 1822, permitiu estudos de vários aspectos da cultura do Egito Antigo, principalmente a partir das inscrições encontradas nas tumbas, nos templos e nos papiros egípcios. Hoje, sabemos que a alimentação e o preparo dos alimentos, tanto no cotidiano como no contexto fúnebre, tinham uma grande importância para a sociedade egípcia, pois eram a fonte de energia durante a vida terrena e na vida após-morte. Os egípcios antigos possuíam uma dieta bastante diversificada, desde o consumo de frutas e leguminosas, a uma gama de pães, bolos, carnes e bebidas. Cenas de banquetes feitos em comemorações e festividades demonstram essa variedade de alimentos. O Papiro Anastasi IV possui uma lista de produtos a serem reunidos por um funcionário do palácio de Ramsés III para um banquete de recepção da chegada do faraó a capital. A partir das inscrições, podemos listar, pelo menos, nove tipos de pães disponíveis para consumo, identificar as carnes consumidas no palácio, principalmente de aves como o ganso, codornas e pombos, além de carneiros e peixes, diferentes tipos de bolos e frutas. No entanto, nem todas as camadas da sociedade gozavam da mesma dieta. A cozinha do palácio do faraó, sem dúvidas, dispunha dos mais diversos cardápios alimentares. Já a população, tinha como base da alimentação diferentes tipos de pães e a cerveja, complementados por vegetais e frutas, e em períodos de festividade, por carnes e outros alimentos distribuídos pelo palácio e pelos templos. Os vegetais eram complementos da dieta da maioria da população, a cebola e alho, por exemplo, poderiam ser consumidos crus com pão. A alface era consumida como salada, assim como o Corchoruso litorius, planta conhecida no Egito por melukhia, e no ocidente por malva, além de diversos tipos de grãos, como feijões, grão de bico, ervilhas e lentilhas. Os figos e as tâmaras estavam frequentemente presentes na culinária egípcia, podendo ser consumidos individualmente ou adicionados as mais variadas receitas, como ingredientes para bolos os tornando adocicados, e na produção de cervejas. Para preparar os mais variados tipos de pães, os egípcios primeiramente produziam a farinha:  os grãos de trigo eram moídos e transformados em farinha com o uso de pilões e almofarizes, nas casas particulares, ou com a roda de moer grãos nas padarias, em seguida peneiravam-na para eliminar os grãos mais resistentes. Na farinha acrescentava-se água e sal, a massa então era sovada em recipientes específicos, parecidos com uma gamela, e depois reservada para fermentação, levando aproximadamente oito horas para crescer. Após esse tempo, o pão era colocado em moldes e formas previamente aquecidos, sendo o molde bedja (em formato cônico) o mais usado, e a massa era assada sobre brasas por cerca de quarenta minutos. O pão poderia ser consumido com cebolas e acompanhado da cerveja. A cerveja é umas das criações dos egípcios antigos, sendo produzida a partir da fermentação de pães de cevada em água que em seguida eram diluídos e peneirados. Seu líquido era bastante encorpado e espesso, muito energético. Assim como o pão, havia uma variedade de cervejas no Egito Antigo. A henket, era muito popular entre os egípcios, usada também como pagamento dos salários. A cerveja seremet obtida através da adição de tâmaras esmagadas no seu processo de fermentação, que além de adocicar mais a cerveja, aumentava o seu índice alcoólico e a tornava mais estável, sendo assim superior às demais. Outros exemplos são: a cerveja henemes, hamat, tenemu e decheret. A diferença entre elas consiste basicamente no tipo de grão utilizado como matéria prima. Além das tâmaras, outros condimentos poderiam ser adicionados no processo de fermentação, como figos, frutos de persea, sementes de tremoço, coentro e mel. Outra bebida fermentada, que acompanha o pioneirismo egípcio, é o vinho, ierp.  A vinha não é nativa do Egito, muito provavelmente, foi importada da Síria-Palestina por volta de 3100 a.c. e passou a ser cultivada próxima as margens do Nilo, em áreas onde a enchente não alcançava, desde as primeiras dinastias. Nas tumbas reais e nobres do Reino Antigo, já havia representações de cenas da produção de vinho, mas apesar de muitas tumbas retratarem esse processo, o consumo da bebida estava restrito a determinados grupos sociais. O vinho estava presente nos banquetes e nas festividades, além de possuir caráter religioso, usado como oferenda aos deuses pelo faraó nos templos. De modo geral, a produção do vinho consistia nos seguintes processos: após a colheita, os trabalhadores transportavam as uvas em cestos e as despejavam em tanques onde eram pisadas a fim de extrair o líquido da fruta. A sobra das cascas, caules e grainhas era colocada em sacos compridos de linho que funcionavam como uma prensa e quatro homens, dois a dois, exerciam força oposta nas duas extremidades efetuando um efeito de torção, fazendo cair do pano para um recipiente, o sumo espremido. O vinho era armazenado em ânforas, onde ocorria o processo de fermentação, após essa etapa, as ânforas eram lacradas e “etiquetadas” com os dados do tipo de vinho, o ano de fabricação, a origem, o destino, e por vezes, o nome do vitinicultor. A diferença do tipo de vinho, geralmente está relacionada a técnica da produção. No Reino Novo (1550-1070 a.c) eram produzidos três tipos de vinhos: o vinho branco, o tinto e o shedeh. O vinho shedeh tinha uma preparação distinta dos demais, pois após seu processo de fermentação era filtrado e aquecido. Na tumba do Faraó Tutankhamon, juntamente a outros artefatos, foram encontradas trinta ânforas de vinho, uma delas de shedeh, com a seguinte inscrição: “Ano 5, Shedeh de muito boa qualidade da propriedade de Aton do Rio Ocidental, chefe vinhateiro Rer”. Em contrapartida, na produção do vinho nedjem poderia ser adicionado mel e figos, que o tornava mais doce e consequentemente aumentava seu teor alcoólico. O vinho paur, de menor qualidade, era obtido pela reumidificação do mosto depois de uma primeira prensagem.  A representação de banquetes nas pinturas das tumbas está relacionada ao

Read More

Mênfis

Thais Chaiane Costa de Faria – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon Segundo a crença egípcia, Mênfis teria sido fundada pelo primeiro rei do Egito, em cerca de 3100 a.C, e foi a primeira capital no Reino Antigo. As primeiras fontes conhecidas que relatam a importância da cidade, estão descritas nos trabalhos de autores como, Heródoto que a visitou ainda na Antiguidade, Estrabão e Diodoro de Sicília. A metrópole, ficava localizada entre o Baixo e o Alto Egito, próxima ao delta do Nilo e para os egípcios antigos, era conhecida como Muro Branco (Ineb hedj). A denominação utilizada hoje decorre do período helenístico, Mênfis é uma palavra grega derivada da construção hieroglífica Mn-Nfr, que significa “Duradoura e Bela”, designação atribuída à pirâmide do rei Pepi I, da VI dinastia (2287 a.C. – 2187 a.C). No Reino Antigo, a cidade era uma das mais populosas de todo o Egito e onde ficava a residência real dos faraós. A localização estratégica da capital entre os dois reinos, possibilitou que a cidade se tornasse um grande centro cultural, religioso e populacional. Nas suas bibliotecas e ateliês, conservaram-se ou transmitiram-se os manuais, os tratados, os cânones e o saber relativos aos monumentos sacralizados. Apesar das transferências da capital para outras regiões ao longo dos anos, para Tebas e Amarna, por exemplo, Mênfis não perdeu sua importância, sempre ocupando uma posição de destaque. No Reino Novo, tornou-se uma metrópole cosmopolita, um grande centro do comércio internacional e uma base militar fundamental para o Império com o seu porto de Peru-Nefer. Entretanto, apesar da sua importância econômica, sua decadência começou a partir do crescimento de Alexandria, no período ptolomaico, que se transformou na grande metrópole e no mais importante porto comercial do Egito. Um dos grandes eventos realizados em Mênfis, na Antiguidade, era marcado pela legitimação do poder faraônico: a cerimônia de coroação do rei e o festival Heb-Sed, também conhecido como jubileu. A cerimônia de coroação era realizada no templo de Ptah e cada detalhe do ritual simbolizava o renascimento do faraó, que ao ser coroado transformava-se em um ser divino. O festival Heb-Sed acontecia a cada trinta anos com o intuito de reafirmar e revitalizar o poder faraônico, no evento uma série de ritos eram realizados, dentre eles, com a típica cauda postiça envergando o saiote real, o faraó corria em volta dos muros da cidade, simbolizando a afirmação e legitimação do seu poder sobre todo território egípcio. Enquanto centro religioso, Mênfis tinha como deus principal, Ptah um deus muito antigo, mencionado nos textos das pirâmides desde o Reino Antigo, e considerado pelo clero da cidade o deus demiurgo, responsável pela criação do mundo. Segundo a mitologia, Ptah manifestou o desejo em seu coração (sua consciência) e através da fala tudo criou. O seu local de culto mais importante era o templo Hut-ka-Ptah, localizado em Mênfis, onde seria a morada do ka do deus. Enquanto criador, o deus era chamado Ptah Tatenen relacionado a terra e posteriormente tornou-se patrono dos artesãos, sendo considerado o inventor dos trabalhos manuais. O deus também foi associado a outras divindades, como Sokar e Osíris, então denominado Ptah-Sokar-Osíris, que estava relacionado ao culto funerário. No Reino Novo, Ptah ganhou uma nova família, ao lado da deusa Sekhmet e seu filho Nefertum, formando a tríade menfita. Já no período ptolomaico ele foi associado ao deus grego Hefesto, ferreiro e mestre no trabalho com metais, pois Mênfis era o centro metalúrgico mais famoso do país. No entanto, a cidade perdeu sua importância religiosa quando Teodósio I (379-395 d.c) decretou que o cristianismo passaria a ser a religião de todo o Império Romano. Diversos estudos foram realizados em busca de entender a extensão de Mênfis e os trabalhos mais recentes demonstram que a cidade se estendia por, pelo menos, 10 Km de Norte para Sul. Contudo, o local “desapareceu” restando apenas as ruínas, pois estaria soterrada devido a acumulação de sedimentos no decorrer dos milênios, além da própria influência do curso do rio Nilo, que provocou uma erosão nos vestígios históricos. É importante lembrar que Mênfis não se resumiu à região de Mit-Rahina, mas estendeu-se de Abu Rawash a Gizé, Abusir, Saqqara e Dahshur. Quem visita Mit-Rahina, pode contemplar as ruínas do recinto do templo de Ptah, com estátuas colossais de Ramsés II e uma grande esfinge de alabastro encontrada por Flinders Petrie, em 1912, que acredita-se que ela estava dentro do templo de Ptah e representaria a rainha Hatshepsut, da XVIII dinastia, entre outros templos menores de distintos períodos. Ptah Ruinas templo de Ptah Esfinge Hatshepsut Referências Telo Canhão, A alimentação no antigo Egipto. Revista Hapi, Lisboa, n.3, p.33-89,Novembro,2015. Disponível em < https://www.academia.edu/35273753/_A_alimenta%C3%A7%C3%A3o_no_antigo_Egipto_in_Hapi_Revista_da_Associa%C3%A7%C3%A3o_Cultural_de_Amizade_Portugal_Egipto_no_3_Lisboa_Novembro_de_2015_pp_33_89_ISSN_2183_0991?email_work_card=view-paper> Acesso em março de 2021 Fonseca, Sofia. Guasch Jané, Maria Rosa. Ibrahim, Mahmoud. O vinho no Antigo Egito: uma história mediterrânea. Revista Mundo Antigo, (NEHMAAT-UFF/PUCG), Campos dos Goytacazes (RJ), ano 1, v.1, nº1, p.131-146, Junho, 2012.  Disponível em <http://www.nehmaat.uff.br/revistasAnteriores2012-1PORT.html> Acesso em março de 2021.

Read More

Nefertari – A Mais Bela

  Lavínia Lírio – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon Grande Esposa Real era como Nefertari era chamada. Foi uma rainha da XIX dinastia. Nefertari não tinha sangue real, mas vinha de uma família nobre natural de Tebas. Casou-se muito jovem com Ramsés II, sendo que neste período ele ainda não havia se tornado faraó. Pouco tempo após a união dos dois, Nefertari teve seu primeiro filho, Amon-herkhepeshef que faleceu muito cedo. Logo quando assumiu o trono, Ramsés II já demonstrou seu interesse em fortalecer o setor militar, ele investiu muito no exército e expandiu o império, fazendo com que seu reinado fosse um período de prosperidade no Egito Antigo. Todo esse crescimento, tanto político quanto econômico, teve influência da rainha Nefertari, que tinha um papel ativo na política, sendo responsável por atos importantes, como negociações de paz entre povos vizinhos, tal como o Tratado de Kadesh. O acordo de paz realizado entre Ramsés II e o rei hitita Hatusil III ficou conhecido como Tratado de Kadesh. Sempre houve muita tensão entre os dois impérios por questões territoriais, e o objetivo do tratado era de manter relações de paz entre as duas partes. Após a finalização do tratado de paz, Nefertari enviou uma carta para a esposa de Hatusil III, a rainha Paduhepa, desejando paz para seu povo. A rainha Nefertari foi a esposa favorita de um dos faraós mais poderosos e influentes. Devido a sua influência seu esposo ordenou a construção de um templo dedicado à imagem dela no complexo de Abu Simbel. No início de seu reinado, Ramsés II já deu andamento na construção dos templos, que demoraram aproximadamente 20 anos para ficarem prontos. O templo dedicado à rainha tem um tamanho inferior em comparação ao do faraó, mas similar em beleza. O templo de Nefertari é repleto de cenas de oferendas para a deusa Hathor, e em sua fachada foram construídas seis estátuas, quatro do faraó e duas da rainha. A mesma beleza do templo da rainha é encontrada também em sua tumba, que é considerada uma das mais bonitas já descobertas. Ela está localizada no Vale das Rainhas, local onde foram enterradas as esposas dos reis e outros nobres. Ernesto Schiaparelli, arqueólogo italiano, foi o responsável pela descoberta em 1904, porém, a tumba já havia sido saqueada na antiguidade, ou seja, a maior parte do enxoval funerário já tinha sido levado, sobrando apenas alguns pedaços de artefatos. O corpo da rainha não foi encontrado, entretanto, um par de joelhos mumificados estava na tumba, atualmente eles estão localizados no Museu Egípcio em Turim, na Itália. De acordo com estudos, os membros são de uma mulher adulta de aproximadamente 40 anos de idade e os materiais utilizados na mumificação coincidem com os que eram usados no século XIII a.C., período em que a rainha viveu. Acredita-se que Nefertari tenha morrido por volta de 1250 a.C, e a descoberta de seu templo e de sua tumba foram fundamentais para deixar o registro da história, fazendo com que ela ficasse conhecida até hoje como uma das grandes rainhas da história do Egito Antigo. TUMBA DE NEFERTARI NO VALE DAS RAINHAS TUMBA DE NEFERTARI NO VALE DAS RAINHAS ESTATUA-DE-NEFERTARI-EM-ABU-SIMBEL TEMPLO DE NEFERTARI EM ABU SIMBEL JOELHOS MUMIFICADOS DE NEFERTARI REFERÊNCIAS: DAVIS, Nicola. Mummified knees are Queen Nefertari´s, archaeologists conclude. The Guardian, 2 de dezembro de 2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/science/2016/dec/02/mummified-knees-are-queen-nefertaris-archaeologists-conclude Joelhos mumificados em museu da Itália são da Rainha Nefertari, descobrem cientistas. O Globo, 06 de dezembro de 2016. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/joelhos-mumificados-em-museu-da-italia-sao-da-rainha-nefertari-descobrem-cientistas-20597948 NOBLECOURT, Christiane Desroche. A mulher no tempo dos Faraós. Campinas, SP. Papirus, 1994.

Read More
Primary Color
default
color 2
color 3
color 4
color 5
color 6
color 7
color 8
color 9
color 10
color 11
color 12
Acessar o conteúdo