O Segundo Período Intermediário

Por: Celi Zinher Tsvetch – monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

A época correspondente entre o Reino Médio e o Reino Novo é nomeado Segundo Período Intermediário (1640 a.C. – 1550 a.C), marcado como um tempo de ruptura da integridade territorial do Egito. A tradição egípcia comumente se refere a essa época como a mais grave ocupação do território, já que os hicsos, uma população de origem asiática, invadiram o país. O termo hicso deriva do egípcio heqa khasut, que significa “príncipe de terras estrangeiras” e é utilizado em textos desde o Reino Antigo, sem determinar exatamente a origem dessa população, mas vestígios apontam para a origem do povo como nômades vindos da região sírio-palestina.

Um facilitador da ocupação hicsa foi a fragmentação política que já vinha ocorrendo no norte do país desde a XIII Dinastia. Por exemplo, o faraó Ay Merneferra (1704 – 1690 a.C) decidiu ser enterrado próximo a cidade de Avaris e não em Menfis, a capital, o que sugere o esfacelamento da unidade na região do Delta. Mas a conquista hicsa no Egito só foi possível por um detalhe: o desenvolvimento técnico e tecnológico desse povo em combate, que comparado com os egípcios, era superior. Nesse caso, em campo de batalha os asiáticos já utilizavam cavalos e carros de guerra, além de espadas feitas de bronze. Essas ferramentas e conhecimentos contribuíram para a permanência dessa população por quase dois séculos no Vale do Rio Nilo.

Enquanto os hicsos dominavam o Baixo Egito, formando a XV Dinastia, e consolidavam Avaris como sua capital, o Alto e uma parte do Médio Egito eram controlados por uma dinastia egípcia, que inclusive participou das tentativas de reunificação do país. Apesar do caráter negativo apontado pelos egípcios do Reino Novo, nos registros sobre o Segundo Período Intermediário, no tempo de controle hicso, essa população assumiu muito dos costumes locais, como adotar Seth como deus dinástico, praticar a escrita hieroglífica e utilizar nomes de tradição egípcia.

Além disso, os hicsos foram responsáveis por levar várias tecnologias para o Vale do Rio Nilo. Como já mencionado, eles apresentaram os cavalos e as bigas para os egípcios, acontecimento muito importante, pois os primeiros carros de guerra possibilitaram que essa tecnologia fosse adotada e aperfeiçoada e, com o tempo, passou a ser utilizada em batalhas, inclusive pela realeza egípcia. Uma espécie de gado chamada zebu e materiais para a fabricação de cerâmica de maneira mais rápida e eficiente são outras inovações levadas pelos asiáticos para o Nilo.

Na tradição egípcia, o Segundo Período Intermediário é entendido como uma época de caos, ou seja, de ausência de Maat, a deusa e o conceito de ordem e equilíbrio na sociedade egípcia. Portanto, a ordem no território só teria sido novamente alcançada com a expulsão dos hicsos. A primeira guerra de unificação do país foi realizada pelo faraó Kamés Wadjkheperra, que documentou suas estratégias em duas estelas, e inclusive registrou a interceptação de um pedido de apoio que um príncipe hicso enviou ao reino de Kush. A unificação realmente só ocorreu com o sucessor de Kamés, durante o reinado de Ahmés, que iniciou a XVIII Dinastia e inaugurou o Reino Novo.

Em uma inscrição sobre a Rainha Hatshepsut (1473-1458 a.C.), feita mais de 80 anos após a guerra entre hicsos e tebanos, é pontuado o tradicional papel da governante como restauradora da ordem após o caos: “Eu levantei o que foi desmembrado desde a primeira vez em que os asiáticos estavam em Avaris”. É interessante notar que mesmo após um grande tempo, a expulsão dos hicsos ainda era referenciada com grande louvor, o que demostra a importância do acontecimento para a história local.  

Referências:

BOURRIAU, Janine. The Second Intermediate Period. In: SHAW, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. 1° edição, United States, New York: Oxford University Press, 2003.

BRANCAGLION, Antônio. Quadro Cronológico: Lista de Reis. Seshat, Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional, UFRJ.

CARDOSO, Ciro Flamarion S. O Egito Antigo. Editora Brasiliense, 1982.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo. 1° edição, L&PM Pocket Encyclopaedia, 2009.

FRIZZO, Fábio. De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a.C.). R. Mest. Hist., Vassouras, v. 12, n. 1, p. 25-40, jan./jun., 2010.

GARCÍA, Alberto Gonzáles. Los hicsos y su dominio sobre Egipto. BAEDE, Boletín de la Asociación Española de Egiptologia, N. 21, p. 7-26, 2012.

 

Referência imagens:

  1. Tiara de ouro com cabeças de gazelas e veados entre flores ou estrelas. Origem: Delta do Rio Nilo. Segundo Período Intermediário. The Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544073
  2. Cabo de chicote em forma de cavalo. Faz referência ao domínio hicso e a chegada dos cavalos no Egito levados por esse povo. The Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544853
  3. Caixão Rishi, característico do Segundo Período Intermediário. The Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/555886