O Festival de Opet

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Vivian Tedardi – Historiadora

O Reino Novo (1550-1070 a.C.) é o período de grande prosperidade no Egito Antigo. A capital era Tebas e Amon o deus padroeiro da cidade. A ele foi dedicado uma das principais celebrações egípcias: a festa de Opet.

Os dois principais templos de Tebas eram Karnak e Luxor. Estes estavam interligados por uma avenida que, aos poucos, foi sendo decorada com esfinges, um percurso com cerca de 3 km de comprimento.

A festa de Opet compreendia uma grande procissão ao longo da avenida de esfinges onde o deus Amon, sua consorte Mut e filho Khonsu, cada um em sua barca sagrada, eram levados do templo de Karnak até Luxor. Momento que a população poderia estar próxima da imagem do deus, já que no culto egípcio apenas as altas hierarquias sacerdotais e o rei tinham acesso à imagem divina.

O festival ocorria no segundo mês de Akhet, a estação de inundação do rio Nilo. Em egípcio chamava-se “heb nefer en Ipet”, que corresponde à “Bela Festa de Opet”. A palavra opet ou ipet seria uma referência ao santuário onde as estátuas dos deuses seriam levadas quando no templo de Luxor.

A fonte mais antiga que temos sobre esta festa foi registrada na Capela Vermelha da rainha-faraó Hatshepsut, que foi construída em seu governo para abrigar a barca cerimonial quando não estivesse em uso. Além deste registro, encontramos representações do festival no templo de Amon-Rá, em Karnak, e nos templos de Luxor e Medinet Habu. Os relevos mostram que a festa nem sempre ocorreu da mesma maneira. Nos governos de Hatshepsut e Tothmés III ocorriam pela avenida de esfinges, tanto que a rainha-faraó mandou construir seis santuários ao longo da avenida para o descanso das barcas sagradas. No período de Tutankhamon a procissão ocorria pelo Nilo, como é possível observar pelos relevos no templo de Luxor. Mesmo que o percurso tenha mudado ao longo do tempo, sabe-se que a população participava ativamente, as barcas eram escoltadas por soldados e carregadas pelos sacerdotes, membros da elite e o faraó estavam presentes, além de dançarinos, e portadores de oferendas que carregavam o que seria oferecido às divindades. Nos relevos é possível ver a grande quantidade de oferendas que eram dedicadas às divindades.

Quando as estátuas já estavam no templo de Luxor várias cerimônias eram conduzidas nos pátios externos até as barcas chegarem ao santuário interno. Lá apenas o rei e alguns sacerdotes oficializariam os rituais. Sobre esses ritos infelizmente não há informações, nenhum texto que descreve o evento sobreviveu. As representações são basicamente das procissões. Assim, não podemos afirmar com certeza o propósito dos rituais que ocorriam em Luxor.

Uma das interpretações é a de que, como o templo de Luxor não é dedicado a um deus de culto ou uma versão deificada do faraó na morte, e sim dedicado ao rejuvenescimento da realeza, que o ritual teria relação com esta finalidade. Ou seja, ao renovar a força vital da tríade tebana (Amon, Mut e Khonsu), confirmava-se também que o rei tinha a posse do Ka (energia vital) real. Esta renovação da força real e sua ligação com Amon fortalecia a autoridade do rei, em um momento também marcado pelo início de um novo ano. Assim, o rei garantia que seu direito de governar fosse divino consolidando sua linhagem e mantendo o vínculo como filho de Amon-Rá.

Mesmo quando Tebas já não era mais a capital do Egito, os faraós e príncipes viajavam para participar do festival. Diversas festas faziam parte do calendário egípcio, porém “a Bela festa de Opet”, pelo significado que possuía em relação à manutenção da monarquia egípcia, foi uma das mais duradouras, já que foi realizada até o período romano.

FUKAYA, Masashi. The Festivals of Opet, the Valley, and the New Year: their socio-religious functions. Archaeopress Egyptology 28. Oxford, 2019.

https://www.nationalgeographic.com/history/magazine/2019/05-06/ancient-egypt-royal-feast/

https://en.wikipedia.org/wiki/Opet_Festival

Seshat

Seu nome, Seshat, quer dizer ““*a escriba” , pois sesh significa escriba e o sufixo et (ou at) indica o gênero feminino. Outro nome atribuído à deusa é Sefkhet-Abwy, referente aos emblemas característicos colocados sobre a cabeça da deusa. Ela também pode ser chamada de a primeira de per-medjat “a casa dos livros”, a primeira de per-ankh “casa da vida”, biblioteca do templo, senhora da escrita, dos anos, dos construtores ou weret-hekau, que significa “a grande da magia” – título dado também a outras deusas.

Seshat geralmente é representada vestida com pele de leopardo, uma veste que simboliza o ofício sacerdotal. O adorno sobre sua cabeça consiste em uma flor de sete pétalas ou estrela de sete pontas – a interpretação desses aspectos é variada -, contornada por um objeto que pode ser um par de chifres invertido ou duas serpentes. O símbolo que há sobre sua cabeça se pronuncia [ s’sh’t ] e é o hieróglifo da deusa. Normalmente, ela aparece segurando um instrumento para marcar a passagem do tempo e seus eventos, além do tempo previsto para o Faraó na sua jornada terrena, bem como instrumentos específicos da atividade de escriba – como o filete de junco utilizado para escrever e a paleta. Em dados momentos, a deusa Seshat é identificada com aspectos semelhantes aos da deusa Néftis e ocasionalmente também pode ser associada à deusa Háthor.

As primeiras aparições da deusa na mitologia egípcia datam ainda do Reino Antigo (a partir de 2920 a.C.), pois há indícios do culto à Seshat na Segunda Dinastia (2770 a.C. – 2649 a.C.). Não se tem conhecimento de nenhum templo dedicado exclusivamente à deusa, mas ela é sempre referenciada como a patrona da construção dos edifícios sagrados e é representada no interior de diversos templos, como os de Abydos, Edfu, Dendera, Karnak e Luxor.

Também é possível encontrar representações suas nas paredes do templo de Abu Simbel, assim como no templo do deus Toth, em Hermópolis ou Khemenu. O culto à deusa prolongou-se até as épocas tardias na cidade de Alexandria, onde foi construída a famosa biblioteca de mesmo nome, visto que Seshat é a deusa da sabedoria e protetora das bibliotecas.

Na mitologia egípcia, Seshat ocupa um papel que a coloca como a deusa das escrituras e dos projetos arquitetônicos, padroeira também da astronomia e matemática pois era a deusa que media e registrava o mundo. Seshat é a páredra do deus Toth, ou seja, uma contraparte feminina do deus da sabedoria e do conhecimento. Ela e Toth fixavam a duração do reinado de um rei gravando seu nome sobre as folhas da árvore ished em Heliópolis. Como deusa da escrita, Seshat era a guardiã dos registros reais e das genealogias. Ela também é mostrada fazendo a gravação do espólio adquirido pelos reis nas batalhas, talvez como um lembrete de que uma parte é devida aos deuses. Logo a partir da Segunda Dinastia, ela foi mostrada ajudando os reis a colocar as bases para construção dos templos e a alinhá-los com as estrelas e planetas. Em alguns textos dos sarcófagos, Toth e Seshat “trazem escritos para um homem no reino dos mortos”. Estes escritos eram os feitiços que poderiam ajudar a pessoa morta a vencer os terrores do submundo e tornar-se um espírito poderoso.

Infelizmente, pela escassez de registros sobre essa deusa, Seshat não é tão conhecida atualmente como as deusas Ísis, Bastet ou Maat. Contudo, pelos vários significados atribuídos à deusa, percebemos que Seshat tinha valor e notoriedade para os egípcios antigos, visto que foi reverenciada até os períodos mais tardios da civilização faraônica.

*Por mais que Seshat seja a senhora da escrita e carregue os instrumentos de um escriba, a deusa não é representada escrevendo e não é recorrente nas fontes que mulheres exercessem o papel de escribas na sociedade egípcia.

Por: Jéssica Cabral

Referências:
Seshat. Dieux et Déesses de l’Ancienne Égypte. Disponível em: .
L. C. F. (org.). A comprehensive list of Gods and Goddessesof Ancient Egypt. p. 276. Disponível em:
PINCH, Geraldine. Handbook of Egyptian Mythology. ABC-CLIO, 2002. p. 190-192.
WAINWRIGHT, G. A. Seshat and the Pharaoh. Journal of Egyptian Archaeology. n.26. 1940. p.30–40.

Maat: princípios regentes do Egito faraônico

A deusa Maat era representada pelos egípcios com a aparência de uma jovem mulher com uma pena de avestruz em sua cabeça. A origem da deusa é incerta, provavelmente tenha surgido nos períodos mais remotos da história egípcia, durante o Pré-Dinástico (c. 5000 – 3000 a.C.).

Segundo a mitologia egípcia, Maat era filha de Rá (o deus do sol) e esposa do deus Thot (deus da escrita e sabedoria). Para os antigos egípcios, essa divindade simbolizava a justiça e a verdade. Em sua balança, o coração do morto era pesado perante o tribunal do deus Osíris, revelando assim as infrações do morto a uma de suas 42 regras. Se o coração, que representava a consciência – ou era onde ela estava guardada – fosse mais leve que a pena da deusa, o morto passaria ao paraíso de Osíris. Porém, se o coração fosse mais pesado que a pena, Ammit, que era uma deusa representada por animais perigosos da África como o crocodilo, o leão e o hipopótamo, devoraria o coração e o morto desapareceria para sempre.
O simbolismo da deusa também estava associado a realeza egípcia e seus princípios deveriam ser “respeitados” pelos faraós. Cultos diários deveriam ser realizados para Maat. Neste caso, ela também era considerada a regente do cosmos e, novamente, vista pelos egípcios como a deusa do equilíbrio e da ordem.

Os egípcios acreditavam que se Maat não estivesse satisfeita com os cultos realizados pelos faraós e sacerdotes, um desiquilíbrio poderia ocorrer. Por exemplo, a cheia do rio Nilo não aconteceria e a população passaria fome.

Seus centros de culto, normalmente, eram dentro de outros templos maiores como, por exemplo, os dedicados as deusas Háthor e Isis. O faraó Amenhotep III (1391-1353 a.C.) mandou construir um templo para a deusa em Karnak e há outros também que estão localizados em Mênfis e Deir el-Medina.

Podemos perceber que a deusa era muito importante para os egípcios, cultuada tanto na vida quanto na morte. Sem a ordem, sobraria para os egípcios apenas o caos. A sociedade egípcia antiga baseou suas leis e muitos costumes na crença a esta deusa e seus princípios que chamavam de Maat.

Shara Lorena Gritten Mello