Alimentação e culinária no tempo dos faraós

Thais Chaiane Costa de Faria – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

A decifração dos hieróglifos, por Jean-François Champollion em 1822, permitiu estudos de vários aspectos da cultura do Egito Antigo, principalmente a partir das inscrições encontradas nas tumbas, nos templos e nos papiros egípcios. Hoje, sabemos que a alimentação e o preparo dos alimentos, tanto no cotidiano como no contexto fúnebre, tinham uma grande importância para a sociedade egípcia, pois eram a fonte de energia durante a vida terrena e na vida após-morte. Os egípcios antigos possuíam uma dieta bastante diversificada, desde o consumo de frutas e leguminosas, a uma gama de pães, bolos, carnes e bebidas. Cenas de banquetes feitos em comemorações e festividades demonstram essa variedade de alimentos.

O Papiro Anastasi IV possui uma lista de produtos a serem reunidos por um funcionário do palácio de Ramsés III para um banquete de recepção da chegada do faraó a capital. A partir das inscrições, podemos listar, pelo menos, nove tipos de pães disponíveis para consumo, identificar as carnes consumidas no palácio, principalmente de aves como o ganso, codornas e pombos, além de carneiros e peixes, diferentes tipos de bolos e frutas. No entanto, nem todas as camadas da sociedade gozavam da mesma dieta. A cozinha do palácio do faraó, sem dúvidas, dispunha dos mais diversos cardápios alimentares. Já a população, tinha como base da alimentação diferentes tipos de pães e a cerveja, complementados por vegetais e frutas, e em períodos de festividade, por carnes e outros alimentos distribuídos pelo palácio e pelos templos.

Os vegetais eram complementos da dieta da maioria da população, a cebola e alho, por exemplo, poderiam ser consumidos crus com pão. A alface era consumida como salada, assim como o Corchoruso litorius, planta conhecida no Egito por melukhia, e no ocidente por malva, além de diversos tipos de grãos, como feijões, grão de bico, ervilhas e lentilhas. Os figos e as tâmaras estavam frequentemente presentes na culinária egípcia, podendo ser consumidos individualmente ou adicionados as mais variadas receitas, como ingredientes para bolos os tornando adocicados, e na produção de cervejas.

Para preparar os mais variados tipos de pães, os egípcios primeiramente produziam a farinha: os grãos de trigo eram moídos e transformados em farinha com o uso de pilões e almofarizes, nas casas particulares, ou com a roda de moer grãos nas padarias, em seguida peneiravam-na para eliminar os grãos mais resistentes. Na farinha acrescentava-se água e sal, a massa então era sovada em recipientes específicos, parecidos com uma gamela, e depois reservada para fermentação, levando aproximadamente oito horas para crescer. Após esse tempo, o pão era colocado em moldes e formas previamente aquecidos, sendo o molde bedja (em formato cônico) o mais usado, e a massa era assada sobre brasas por cerca de quarenta minutos. O pão poderia ser consumido com cebolas e acompanhado da cerveja.

A cerveja é umas das criações dos egípcios antigos, sendo produzida a partir da fermentação de pães de cevada em água que em seguida eram diluídos e peneirados. Seu líquido era bastante encorpado e espesso, muito energético. Assim como o pão, havia uma variedade de cervejas no Egito Antigo. A henket, era muito popular entre os egípcios, usada também como pagamento dos salários. A cerveja seremet obtida através da adição de tâmaras esmagadas no seu processo de fermentação, que além de adocicar mais a cerveja, aumentava o seu índice alcoólico e a tornava mais estável, sendo assim superior às demais. Outros exemplos são: a cerveja henemes, hamat, tenemu e decheret. A diferença entre elas consiste basicamente no tipo de grão utilizado como matéria prima. Além das tâmaras, outros condimentos poderiam ser adicionados no processo de fermentação, como figos, frutos de persea, sementes de tremoço, coentro e mel.

Outra bebida fermentada, que acompanha o pioneirismo egípcio, é o vinho, ierp. A vinha não é nativa do Egito, muito provavelmente, foi importada da Síria-Palestina por volta de 3100 a.c. e passou a ser cultivada próxima as margens do Nilo, em áreas onde a enchente não alcançava, desde as primeiras dinastias. Nas tumbas reais e nobres do Reino Antigo, já havia representações de cenas da produção de vinho, mas apesar de muitas tumbas retratarem esse processo, o consumo da bebida estava restrito a determinados grupos sociais. O vinho estava presente nos banquetes e nas festividades, além de possuir caráter religioso, usado como oferenda aos deuses pelo faraó nos templos.

De modo geral, a produção do vinho consistia nos seguintes processos: após a colheita, os trabalhadores transportavam as uvas em cestos e as despejavam em tanques onde eram pisadas a fim de extrair o líquido da fruta. A sobra das cascas, caules e grainhas era colocada em sacos compridos de linho que funcionavam como uma prensa e quatro homens, dois a dois, exerciam força oposta nas duas extremidades efetuando um efeito de torção, fazendo cair do pano para um recipiente, o sumo espremido. O vinho era armazenado em ânforas, onde ocorria o processo de fermentação, após essa etapa, as ânforas eram lacradas e “etiquetadas” com os dados do tipo de vinho, o ano de fabricação, a origem, o destino, e por vezes, o nome do vitinicultor. A diferença do tipo de vinho, geralmente está relacionada a técnica da produção. No Reino Novo (1550-1070 a.c) eram produzidos três tipos de vinhos: o vinho branco, o tinto e o shedeh. O vinho shedeh tinha uma preparação distinta dos demais, pois após seu processo de fermentação era filtrado e aquecido. Na tumba do Faraó Tutankhamon, juntamente a outros artefatos, foram encontradas trinta ânforas de vinho, uma delas de shedeh, com a seguinte inscrição: “Ano 5, Shedeh de muito boa qualidade da propriedade de Aton do Rio Ocidental, chefe vinhateiro Rer”. Em contrapartida, na produção do vinho nedjem poderia ser adicionado mel e figos, que o tornava mais doce e consequentemente aumentava seu teor alcoólico. O vinho paur, de menor qualidade, era obtido pela reumidificação do mosto depois de uma primeira prensagem.

A representação de banquetes nas pinturas das tumbas está relacionada ao Ka, o princípio de energia, uma das partes integrantes do ser, segundo os egípcios. A representação destes garantiriam a manutenção do Ka. Além do conteúdo das pinturas, em algumas tumbas foram encontradas refeições completas, depositadas como oferendas ao falecido. É o caso de uma mesa de oferendas com alimentos contendo patos, pães, figos e peixes secos, encontrada em uma tumba em Tebas, datada do Reino Novo (1.550-1.070 a.C.), o clima árido e o local fechado, contribuíram para sua conservação. O preparo dos alimentos, também é representado como forma de garantir a existência dos produtos no outro mundo.

Referências
Telo Canhão, A alimentação no antigo Egipto. Revista Hapi, Lisboa, n.3, p.33-89,Novembro,2015. Disponível em < https://www.academia.edu/35273753/_A_alimenta%C3%A7%C3%A3o_no_antigo_Egipto_in_Hapi_Revista_da_Associa%C3%A7%C3%A3o_Cultural_de_Amizade_Portugal_Egipto_no_3_Lisboa_Novembro_de_2015_pp_33_89_ISSN_2183_0991?email_work_card=view-paper>
Acesso em março de 2021

Fonseca, Sofia. Guasch Jané, Maria Rosa. Ibrahim, Mahmoud. O vinho no Antigo Egito: uma história mediterrânea. Revista Mundo Antigo, (NEHMAAT-UFF/PUCG), Campos dos Goytacazes (RJ), ano 1, v.1, nº1, p.131-146, Junho, 2012. Disponível em <http://www.nehmaat.uff.br/revistasAnteriores2012-1PORT.html> Acesso em março de 2021.

Mênfis

Thais Chaiane Costa de Faria – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

Segundo a crença egípcia, Mênfis teria sido fundada pelo primeiro rei do Egito, em cerca de 3100 a.C, e foi a primeira capital no Reino Antigo. As primeiras fontes conhecidas que relatam a importância da cidade, estão descritas nos trabalhos de autores como, Heródoto que a visitou ainda na Antiguidade, Estrabão e Diodoro de Sicília. A metrópole, ficava localizada entre o Baixo e o Alto Egito, próxima ao delta do Nilo e para os egípcios antigos, era conhecida como Muro Branco (Ineb hedj). A denominação utilizada hoje decorre do período helenístico, Mênfis é uma palavra grega derivada da construção hieroglífica Mn-Nfr, que significa “Duradoura e Bela”, designação atribuída à pirâmide do rei Pepi I, da VI dinastia (2287 a.C. – 2187 a.C).

No Reino Antigo, a cidade era uma das mais populosas de todo o Egito e onde ficava a residência real dos faraós. A localização estratégica da capital entre os dois reinos, possibilitou que a cidade se tornasse um grande centro cultural, religioso e populacional. Nas suas bibliotecas e ateliês, conservaram-se ou transmitiram-se os manuais, os tratados, os cânones e o saber relativos aos monumentos sacralizados. Apesar das transferências da capital para outras regiões ao longo dos anos, para Tebas e Amarna, por exemplo, Mênfis não perdeu sua importância, sempre ocupando uma posição de destaque. No Reino Novo, tornou-se uma metrópole cosmopolita, um grande centro do comércio internacional e uma base militar fundamental para o Império com o seu porto de Peru-Nefer. Entretanto, apesar da sua importância econômica, sua decadência começou a partir do crescimento de Alexandria, no período ptolomaico, que se transformou na grande metrópole e no mais importante porto comercial do Egito.

Um dos grandes eventos realizados em Mênfis, na Antiguidade, era marcado pela legitimação do poder faraônico: a cerimônia de coroação do rei e o festival Heb-Sed, também conhecido como jubileu. A cerimônia de coroação era realizada no templo de Ptah e cada detalhe do ritual simbolizava o renascimento do faraó, que ao ser coroado transformava-se em um ser divino. O festival Heb-Sed acontecia a cada trinta anos com o intuito de reafirmar e revitalizar o poder faraônico, no evento uma série de ritos eram realizados, dentre eles, com a típica cauda postiça envergando o saiote real, o faraó corria em volta dos muros da cidade, simbolizando a afirmação e legitimação do seu poder sobre todo território egípcio.

Enquanto centro religioso, Mênfis tinha como deus principal, Ptah um deus muito antigo, mencionado nos textos das pirâmides desde o Reino Antigo, e considerado pelo clero da cidade o deus demiurgo, responsável pela criação do mundo. Segundo a mitologia, Ptah manifestou o desejo em seu coração (sua consciência) e através da fala tudo criou. O seu local de culto mais importante era o templo Hut-ka-Ptah, localizado em Mênfis, onde seria a morada do ka do deus.

Enquanto criador, o deus era chamado Ptah Tatenen relacionado a terra e posteriormente tornou-se patrono dos artesãos, sendo considerado o inventor dos trabalhos manuais. O deus também foi associado a outras divindades, como Sokar e Osíris, então denominado Ptah-Sokar-Osíris, que estava relacionado ao culto funerário. No Reino Novo, Ptah ganhou uma nova família, ao lado da deusa Sekhmet e seu filho Nefertum, formando a tríade menfita. Já no período ptolomaico ele foi associado ao deus grego Hefesto, ferreiro e mestre no trabalho com metais, pois Mênfis era o centro metalúrgico mais famoso do país. No entanto, a cidade perdeu sua importância religiosa quando Teodósio I (379-395 d.c) decretou que o cristianismo passaria a ser a religião de todo o Império Romano.

Diversos estudos foram realizados em busca de entender a extensão de Mênfis e os trabalhos mais recentes demonstram que a cidade se estendia por, pelo menos, 10 Km de Norte para Sul. Contudo, o local “desapareceu” restando apenas as ruínas, pois estaria soterrada devido a acumulação de sedimentos no decorrer dos milênios, além da própria influência do curso do rio Nilo, que provocou uma erosão nos vestígios históricos. É importante lembrar que Mênfis não se resumiu à região de Mit-Rahina, mas estendeu-se de Abu Rawash a Gizé, Abusir, Saqqara e Dahshur.

Quem visita Mit-Rahina, pode contemplar as ruínas do recinto do templo de Ptah, com estátuas colossais de Ramsés II e uma grande esfinge de alabastro encontrada por Flinders Petrie, em 1912, que acredita-se que ela estava dentro do templo de Ptah e representaria a rainha Hatshepsut, da XVIII dinastia, entre outros templos menores de distintos períodos.

Referências:
Lopes, Maria Helena Trindade . Mênfis, a cidade “que desapareceu”. In: Vargas , A.Z, Pozzer, K, Martins, L.C.P (Orgs.) Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018 ( p.4-55).
BAINES, John; MÁLEK, Jaromír. O mundo egípcio: deuses, templos e faraós. Rio de Janeiro: Del Prado, 1996.v.2.
Cardoso, Ciro Flamarion. Deslocamento e alteridade : A associação da distância e da viagem com o estranho e o maravilhoso entre os antigos egípcios. Phoînix, Rio de Janeiro,v.16, n.1, p.11-31. Disponível em :
<https://revistas.ufrj.br/index.php/phoinix/article/view/36569/20138>
Acesso em abril de 2021
Ptah <https://br.pinterest.com/pin/111604896990942897/>
Ruínas templo de Ptah. < https://learninglab.si.edu/resources/view/378415>
Esfinge de Hatshepsut < https://historia.nationalgeographic.com.es/a/menfis-primera-capital-egipto_7278/4>

Nefertari – A Mais Bela

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Lavínia Lírio – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

Grande Esposa Real era como Nefertari era chamada. Foi uma rainha da XIX dinastia. Nefertari não tinha sangue real, mas vinha de uma família nobre natural de Tebas. Casou-se muito jovem com Ramsés II, sendo que neste período ele ainda não havia se tornado faraó. Pouco tempo após a união dos dois, Nefertari teve seu primeiro filho, Amon-herkhepeshef que faleceu muito cedo.

Logo quando assumiu o trono, Ramsés II já demonstrou seu interesse em fortalecer o setor militar, ele investiu muito no exército e expandiu o império, fazendo com que seu reinado fosse um período de prosperidade no Egito Antigo. Todo esse crescimento, tanto político quanto econômico, teve influência da rainha Nefertari, que tinha um papel ativo na política, sendo responsável por atos importantes, como negociações de paz entre povos vizinhos, tal como o Tratado de Kadesh.

O acordo de paz realizado entre Ramsés II e o rei hitita Hatusil III ficou conhecido como Tratado de Kadesh. Sempre houve muita tensão entre os dois impérios por questões territoriais, e o objetivo do tratado era de manter relações de paz entre as duas partes. Após a finalização do tratado de paz, Nefertari enviou uma carta para a esposa de Hatusil III, a rainha Paduhepa, desejando paz para seu povo.

A rainha Nefertari foi a esposa favorita de um dos faraós mais poderosos e influentes. Devido a sua influência seu esposo ordenou a construção de um templo dedicado à imagem dela no complexo de Abu Simbel.

No início de seu reinado, Ramsés II já deu andamento na construção dos templos, que demoraram aproximadamente 20 anos para ficarem prontos. O templo dedicado à rainha tem um tamanho inferior em comparação ao do faraó, mas similar em beleza. O templo de Nefertari é repleto de cenas de oferendas para a deusa Hathor, e em sua fachada foram construídas seis estátuas, quatro do faraó e duas da rainha.

A mesma beleza do templo da rainha é encontrada também em sua tumba, que é considerada uma das mais bonitas já descobertas. Ela está localizada no Vale das Rainhas, local onde foram enterradas as esposas dos reis e outros nobres. Ernesto Schiaparelli, arqueólogo italiano, foi o responsável pela descoberta em 1904, porém, a tumba já havia sido saqueada na antiguidade, ou seja, a maior parte do enxoval funerário já tinha sido levado, sobrando apenas alguns pedaços de artefatos.

O corpo da rainha não foi encontrado, entretanto, um par de joelhos mumificados estava na tumba, atualmente eles estão localizados no Museu Egípcio em Turim, na Itália. De acordo com estudos, os membros são de uma mulher adulta de aproximadamente 40 anos de idade e os materiais utilizados na mumificação coincidem com os que eram usados no século XIII a.C., período em que a rainha viveu.

Acredita-se que Nefertari tenha morrido por volta de 1250 a.C, e a descoberta de seu templo e de sua tumba foram fundamentais para deixar o registro da história, fazendo com que ela ficasse conhecida até hoje como uma das grandes rainhas da história do Egito Antigo.

REFERÊNCIAS:

DAVIS, Nicola. Mummified knees are Queen Nefertari´s, archaeologists conclude. The Guardian, 2 de dezembro de 2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/science/2016/dec/02/mummified-knees-are-queen-nefertaris-archaeologists-conclude

Joelhos mumificados em museu da Itália são da Rainha Nefertari, descobrem cientistas. O Globo, 06 de dezembro de 2016. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/joelhos-mumificados-em-museu-da-italia-sao-da-rainha-nefertari-descobrem-cientistas-20597948

NOBLECOURT, Christiane Desroche. A mulher no tempo dos Faraós. Campinas, SP. Papirus, 1994.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

A Grande esposa real e Rainha-mãe: Tiye

Thais Chaiane Costa de Faria

Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

O papel desempenhado pelas mulheres na história, nas mais diversas sociedades, em tempos remotos ou pouco distantes de nós, principalmente no âmbito político-social, é abordado em diversos estudos recentes que visam desmistificar a ideia de uma atitude passiva, muitas vezes atribuída ao feminino em detrimento do poder associado ao masculino. Na antiguidade egípcia, a Rainha Tiye, esposa do faraó Amenhotep III, viveu durante o Reino Novo, especificamente, no período de transição entre o reinado de seu marido e o período amarniano, governado por seu filho Akhenaton, e teve um papel importante em ambos os períodos, influenciando a política e a religião do Egito. /

Tiye não fazia parte da família real antes de se casar com Amenhotep III, fator excepcional na sociedade egípcia pois, normalmente, as esposas principais deveriam ter um grau de parentesco com o faraó vigente. A rainha nascida em Akhmin, era filha de Yuya, sumo sacerdote de Min e, mais tarde, chefe da cavalaria, e da dama Tuya, superintendente do harém de Akhmin e Amon. Apesar de sua família não possuir posição elevada, como a realeza, seus familiares exerciam influência nos cultos locais de Tebas. Tiye ocupou uma posição de destaque ainda no reinado de Amenhotep III, ao lado do marido, esteve associada aos grandes acontecimentos marcantes do reino.

No final do mês de setembro, no ano 11 de reinado de Amenhotep III, o faraó ordenou a escavação de um lago em Djarukha, ao norte de Akhmin. As dimensões do lago, equivaliam a dois quilômetros por 365 metros, e quinze dias após o começo da obra, já estava pronto. A construção do lago foi feita a fim de melhorar a irrigação do solo nas culturas locais e facilitar a fertilização. A inauguração do projeto, foi marcada pelo ritual de navegação da barca real, “Aton irradia”, sacralizando o lago e tornando a terra fecunda. Nessa ocasião a rainha Tiye, exercia sua função divina. O casal régio também ordenou a edificação de dois templos no Sudão, um em Soleb e o outro em Sedeinga, na Núbia. Retratada ao lado do marido em estátuas colossais, a rainha foi venerada como deusa, também deificada e incluída no programa solar, foi considerada como o olho de Rá no Sudão, que se uniu a divindade Nebmaatra (faraó divinizado), para retornar ao Egito e restaurar a Maat do mundo. Na tumba de Kheruef, em Tebas, a monarca, em forma de esfinge, aparece massacrando os inimigos e reestabelece Maat, promovendo assim a justiça e ordem no universo.

A rainha passava a maior parte do tempo em Tebas, administrando a Casa da Rainha, parte integrante do palácio, onde havia oficinas de artesãos, padeiros, cervejeiros, ourives, armazéns, marceneiros, um tesouro, serviços médicos e laboratórios, garantindo uma boa gestão dos bens. No entanto, com o falecimento de Amenhotep III, Tiye passou a governar o Egito, até um dos filhos, a jovem Satamon ou Amenhotep IV, ter experiência e maturidade para reinar, pois na época da perda do pai, os irmãos eram muito jovens e inexperientes para ocupar o trono. Satamon, a filha da rainha desapareceu dos registros oficiais, e Amenhotep IV, que logo se tornaria Akhenaton, ao lado de sua esposa Nefertiti, ocupou o trono em 1353 a.c. A partir do segundo ano de seu reinado, Amenhotep IV reformulou conceitos religiosos, políticos e artísticos, no período conhecido como a Reforma de Amarna, onde a capital do reino foi transferida para outro local, cidade conhecida como Akhetaton (hoje Tell el-Amarna) e o culto solar a Aton e a família real, passou a ser prioridade.

Nesse período o Egito possuía acordos com a região de Mitani, estabelecidos desde o reinado de Amenhotep III, e Tiye era a única que sabia das negociações e os segredos do Estado. Quando Amenhotep IV assume o poder, fica claro a influência política que sua rainha-mãe teve sob seu governo, pois ela estava ciente das relações do reino com o exterior e mantinha contato com os governantes estrangeiros. Através de uma das cartas trocadas entre Tushratta, governante de Mitani e a própria rainha, observa-se a cobrança de Tushratta em relação à política guiada por Amenhotep IV, que estaria descumprindo os acordos, e pede a Tiye uma intervenção na política de seu filho, por ser conhecedora do modo como ocorria a negociação. Na carta enviada por Tushratta, ele comenta o pedido da rainha em manter com o filho Akhenaton, as mesmas relações que havia tido com seu falecido marido, mas relata o problema no acordo. O reino deveria encaminhar a Mitani, estátuas em ouro maciço, mas o que lhe foi enviado foram estátuas em madeira. Tushratta, apela a rainha para conversar com o faraó e resolver o impasse, para que assim possa continuar o relacionamento entre os reinos. O governante termina a carta saudando a rainha, enviando presentes, recipientes para perfumes cheios de “óleo doce” e um conjunto de pedras incrustadas em ouro. Outras duas cartas, enviadas de Mitani, dessa vez, destinadas ao faraó, o aconselham a ouvir sua mãe, pois ela, melhor do que ninguém, sabe quais são os tratados determinados entre estes dois reinos.

Akhenaton mandou construir um palácio para Tiye em Akhetaton, para permanecer quando estava na cidade. Tiye era um elo entre Tebas e a nova capital, por isso viajava frequentemente a cidade do deus Amon, para manter relações entre as duas cidades. Tiye também aparece na arte amarniana, retratada nos banquetes da família real junto com sua filha Beketaten. A rainha-mãe faleceu no oitavo ano de reinado de Akhenaton e as fontes apontam para o túmulo número 55, no Vale dos Reis, o local onde ela teria sido inumada. Sem decorações esculpidas nas paredes, a tumba tinha como parte do seu enxoval funerário, um trenó para a múmia, um ataúde, amuletos, frascos de perfume e várias peças raras que acabaram sendo destruídas ao serem retiradas do local.

Fundações funerárias em Tebas e no Médio Egito celebraram sua memória e foi-lhe prestado culto. Sem dúvidas, Tiye desempenhou um papel além do título de Rainha-mãe e Grande Esposa Real, colaborando para a manutenção de Maat, ao atuar em função da ordem no reino.

Referências:

JACQ, Christian. As egípcias: Retratos de mulheres no Egito Faraônico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

SCOVILLE, Priscila. As mulheres do faraó: Análise da influência das rainhas Tiye e Nefertiti durante o regime Amenhotep IV/Akhenaton (c.1352 – 1336 AEC). Trabalho de conclusão de curso (graduação em História Memória e Imagem)-UFPR, Curitiba, 2014. Disponível em https://historiapt.info/pars_docs/refs/7/6504/6504.pdf Acesso em março de 2021

Amarna Period: (Society for the Promotion of the Egyptian Museum Berlin) (egyptian-museum-berlin.com)

https://www.britishmuseum.org/collection/object/W_1888-1013-39 Acesso em março de 2021[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

A infância no Egito Antigo

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Thais Chaiane Costa de Faria – Monitora do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon

A infância na Antiguidade é tema de diversos estudos recentes os quais buscam compreender o papel desempenhado pelas crianças na sociedade, com um olhar menos passivo, analisando-as como agentes sociais e suas contribuições para a comunidade em que estavam inseridas. Pesquisas nessa área da Egiptologia abordam aspectos desde a concepção, nascimento, até os primeiros anos de vida das crianças.

Para os egípcios antigos ter filhos era sinal de honra, basicamente a finalidade do casamento, pois assim, garantiriam a perpetuação de sua linhagem familiar. Os filhos seriam aqueles que dariam apoio durante os momentos difíceis da vida, como em caso de doenças e a própria velhice, principalmente no plano pós morte. O filho mais velho seria responsável por proporcionar um funeral adequado aos seus pais, bem como as práticas relacionadas ao culto funerário em memória deles.

No entanto, a gravidez no Egito Antigo tinha seus riscos e complicações, pois, no decorrer da gestação hemorragias poderiam ocorrer e, durante o parto, a mãe e o bebê corriam risco de vida dadas as circunstâncias da concepção somando a má nutrição da futura mãe. Portanto, os egípcios desenvolveram mecanismos para evitar tais riscos assegurando proteção para ambos: o culto a divindades relacionadas à concepção e a fertilidade eram adotados. Ísis, a senhora da magia, era a deusa da fertilidade, exemplo de mãe, protetora das crianças; a deusa Háthor estava associada a sexualidade e a maternidade, protetora das mulheres, assim como o deus Bes; Taueret era a divindade protetora das grávidas e das parturientes, dentre outras divindades. Amuletos, encantamentos recitados enquanto o parto era realizado e artefatos produzidos para uso doméstico, formavam um conjunto de práticas voltadas para a proteção da mãe e do recém-nascido. Os “tijolos do nascimento”, por exemplo, serviriam como apoio para a mãe no momento de dar à luz. Segundo estudos, supostamente no total de dois ou quatro, também poderiam ser agrupados lado a lado formando uma espécie de “cama” onde o bebê era colocado. Outros artefatos como as “presas de hipopótamos”, também chamados de “bastões do nascimento”, eram ornamentados com figuras animais, divinas e inscrições que tinham como função a proteção da criança, afastando as forças maléficas terrenas ou não que quisessem lhes fazer mal. Além dos amuletos usados como proteção diária, havia também aqueles associados aos encantamentos mágicos, utilizados pelas crianças para combater alguma enfermidade que estivesse afetando-as.

Essa preocupação com a proteção e segurança dos bebês pelos egípcios está relacionada diretamente com a mortalidade infantil, muito comum na Antiguidade, pois além dos riscos da gestação e do parto, os primeiros anos de vida dos pequeninos, sem dúvidas, eram muito difíceis. A má nutrição da mãe poderia afetar o desenvolvimento inicial do crescimento do bebê, pois pelo menos até os três primeiros anos de idade o leite materno era sua principal fonte de alimentação. Após essa fase o lactente passaria aos poucos, a consumir novos alimentos em sua dieta, como frutas e verduras comuns na refeição cotidiana da família, entretanto essa transição poderia acarretar problemas intestinais e a carência de consumo de algum nutriente durante a infância como um todo, poderia ao longo do tempo, ocasionar doenças, como malformações ósseas. Contudo, apesar do alto índice da mortalidade infantil (mesmo que em números incertos), na medida em que a criança crescia sua expectativa de vida era prolongada.

A inserção social da criança na comunidade se dava logo após seus primeiros meses de vida, acompanhada da mãe em suas tarefas rotineiras, era carregada em uma espécie de canga facilitando seu deslocamento e amamentação. Nos ambientes onde eram desenvolvidas essas atividades, a criança tinha seus primeiros contatos com outros membros da comunidade, provavelmente da mesma faixa etária, que se tornavam seus companheiros diários e parceiros nas brincadeiras.

O lúdico também estava presente no dia a dia das crianças egípcias, pois foram encontrados diversos artefatos considerados brinquedos, dentre objetos com formas animais, dados, bonecas de pano e jogos, muito comuns inclusive no entretenimento dos adultos.  O Senet, por exemplo, foi encontrado junto a outros artefatos, na tumba do faraó Tutankhamon. Era um jogo de tabuleiro o qual era dividido em três fileiras de dez quadrados. Alguns dos quadrados tinham símbolos que representavam a má e boa fortuna. Sabe-se que era um jogo de estratégia, mas não existe certeza de quais eram as suas regras. Entretanto, no geral, a crença é de que o vencedor era aquele que conseguisse levar suas peças para o final do lado do seu oponente.

Contudo, através da análise das representações iconográficas podemos identificar facilmente algumas características que demonstram outros aspectos da infância e da juventude no Egito Antigo: geralmente as crianças são retratadas juntamente com os adultos alicerçando a ideia de dependência para com eles, menores que as demais figuras humanas representadas e em alguns casos, retratadas nuas. Entretanto essa condição não estaria necessariamente vinculada a realidade, sendo optada como um traço pertinente ao grupo representado, assim como as imagens onde a criança aparece com um dedo na boca.

A típica trança lateral também poderia representar a infância e a juventude dependendo do contexto. O penteado era adotado pelos egípcios até certa idade entre a infância e a adolescência, depois passavam a usar o cabelo raspado, no caso dos homens, e com perucas para as mulheres. Conforme seu crescimento, as crianças logo iam adquirindo novas responsabilidades, explícitas em muitas cenas iconográficas, onde aparecem realizando diversas atividades, como a fabricação de utensílios para uso doméstico, além de participarem das tarefas agrícolas e dos cuidados da casa.

Referências:

Coelho, Liliane Cristina. Do nascimento aos primeiros anos de vida: um olhar sobre a infância no Egito do Reino Médio (c. 2040-1640 a. C.) Revista Plêthos, Rio de Janeiro, 2,2,12, p.30-50, fev.2012.

Disponível em : https://www.historia.uff.br/revistaplethos/nova/downloads/4Liliane.pdf. Acesso em janeiro de 2021

Chapot, Gisela. A criança nas representações mortuárias privadas no Egito Antigo. SEMNA – Estudos de Egiptologia VI, Rio de Janeiro,2ª edição, p.44-59,2019. Disponível em:https://seshat.museunacional.ufrj.br/wp-content/uploads/2019/12/Segunda-Edi%C3%A7%C3%A3o-Estudos-de-Egiptologia-VI.pdf. Acesso em janeiro de 2021

Santos, Jessica Alexandra Monteiro. A protecção mágica da “Primeira Infância” no Egipto Antigo. Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/17690. Acesso em janeiro de 2021

http://arqueologiaegipcia.com.br/2017/10/12/10-brinquedos-do-egito-antigo-que-voce-precisa-conhecer/. Acesso em janeiro de 2021

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