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Destaque Cultural

Destaque Cultural: Papiro Westcar

A partir da decifração dos hieróglifos por Champollion, no início do século XIX, uma vasta documentação passa a ser traduzida e estudada, assim a literatura egípcia antiga foi aos poucos sendo conhecida e organizada. Atualmente, os egiptólogos buscam compreender os escritos em sua própria estrutura textual, classificando-os como literatura crítica, gnômica, lírica, dramática, aventuresca e fantástica[1].

O Papiro Westcar se enquadra na categoria de Literatura Fantástica. Estes textos propõem a apresentação e feitos considerados mágicos e/ou fora da realidade, como o uso de poderes para dar vida e seres inanimados ou realizar proezas que interferem no funcionamento normal das coisas. Ainda, mostram forte ligação com questões religiosas e míticas.

Dentro da egiptologia os papiros levam o nome da pessoa que o adquiriu pela primeira vez. Neste caso, tal fato é creditado ao inglês Henry Westcar, que o adquiriu no ano de 1824. Posteriormente, o papiro chegou às mãos do egiptólogo alemão Karl Richard Lepsius que iniciou os primeiros estudos. Contudo, somente após a morte de Lepsius, o papiro foi traduzido pelo alemão Adolf Erman. Com 1,58cm o documento é composto por doze páginas com aproximadamente 26 linhas cada. O texto está em hierático, nas cores preto e vermelho. Apresenta grande desgaste nas páginas e atualmente compõe o acervo do Museu de Berlim (Papiro de Berlim – 3033).

O Papiro Westcar data do período dos Hicsos (séculos XVII – XVI a.C.), todavia, estudos mostraram que as páginas continham um texto mais antigo, que foi apagado, sendo reutilizado para a escrita atual. A atitude de reutilizar papiros foi comum no Egito antigo e é conhecida como palimpsesto, devido alto custo de produção de folhas novas.

A série de relatos contida no papiro, mostra a presença de cinco contos, entretanto, do primeiro conto só restaram duas linhas; o segundo, o terceiro e o quarto conto estão completos e o quinto conto termina abruptamente. No geral, todas as histórias constituem o desejo do rei Khufu (Queóps em grego), da quarta dinastia, em alegrar-se escutando seus filhos. Considerados textos de escrita pobre e linguagem repetitiva, poderiam estar ligados a tradição oral. Pretendemos apresentar, de forma breve as três histórias completas, mesclando trechos originais com explicações.

O primeiro conto completo retrata uma história de adultério. Ubainer, chefe dos sacerdotes-leitores, após descobrir que sua esposa se encontrava com um homem, no jardim de sua própria casa, resolveu se vingar. Com a ajuda de seu mordomo, retira um pedaço de cera de uma caixa mágica, modela um crocodilo e pede que o coloque no tanque do jardim, mas antes recita tal encantamento: “Quem quer que venha banhar-se em meu tanque, agarra-o com tua boca”. No dia seguinte, assim acontece, quando o homem adentra ao tanque, o crocodilo de cera “… virou um animal vivo com 3,66m” que agarrou-o, e levou para o fundo do lago. Mais tarde, quando o dono da casa chega, chama o animal que traz o amante. Ubainer ordena ao crocodilo, que o leve ao fundo do lago e nunca mais o tire de lá, já sua esposa foi condenada e acabou sendo queimada.

O segundo conto mostra as proezas de um mago durante um passeio do rei no lago do palácio. O rei Sneferu, estando muito deprimido, chamou o chefe dos sacerdotes Djadjaemankh, para que criasse algo que animasse seu coração. O sacerdote ordena que preparem uma barca com as mais belas moças do palácio. Assim, o rei saiu passear; em certo momento uma das moças, que estava a remar, começa a chorar, pois teria derrubado um amuleto em forma de peixe na água do lago. O rei tentou dar outro presente a moça, contudo, ela queria seu amuleto. Djadjaemankh é chamado para resolver o problema. Utilizando de fórmulas mágicas ele abre as águas do lago, desce ao chão e recupera o enfeite da moça.

O terceiro conto traz as histórias do velho mago, Djédi, que teria cento e dez anos. O filho do rei é enviado para o encontrar, e após alguns dias de viagem, o mago já estava no palácio. Dentre suas maiores proezas, ele conseguia unir uma cabeça separada de um corpo, fez isto diante do rei com um ganso e um boi. Ganhou grande prestígio na corte. O mago ainda dizia saber onde se encontravam as câmaras secretas de Toth, que o rei esmerava copiá-las em seu templo funerário. Ao exigir que o mago mostrasse o local, Djédi afirmou que não estava em seu poder entregar estes segredos, dizendo que o local seria mostrado pelo filho mais velho de Rededjedet, uma mulher que dará à luz aos reis da próxima dinastia.

O Papiro Westcar é considerado uma das peças mais importantes da literatura egípcia. Rosalie David aponta que todas as histórias tinham “objetivos propagandísticos políticos e religiosos”, enaltecendo os reis e seus sacerdotes. Estas características estão associadas à tradição oral dos contadores de histórias, que migravam de uma cidade para outra, a fim de perpetrar grandes feitos do passado.

[1] Tal proposta é apresentada por Emanuel Araújo em: ARAÚJO, E. Escrito para a eternidade: a literatura no Egito faraônico. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Imprensa Oficial, 2000.

Por: Jeferson Fernando Nabosni – Historiador

Pensamentos do Antigo Egito: o diálogo entre o homem desesperado e o seu bá

Papiro de Berlim, 3024 – Diálogo entre o homem desesperado e o Bá – XII Dinastia – Altes Museum - Berlim - Alemanha

Por Ewerson Dubiela
Historiador do Museu EgípcioComo produção literária dos antigos egípcios, o chamado diálogo entre o homem desesperado e o seu bá é um dos textos mais discutidos e debatidos no meio acadêmico, possuindo mais de setenta artigos e traduções com diversas explicações desde o ano de 1896. A obra foi classificada de diversas formas como, por exemplo, sendo parte de uma autobiografia de um nobre ou como a memória pós suicídio de um líder de uma revolta através de um discípulo. Mais recentemente, tem se considerado o fator de uma discussão de valor a respeito da morte e da relação entre vivos e mortos.Por qual motivo há tantas interpretações acerca de um único texto? Um dos motivos principais é o fato de ter chegado à nossa época apenas uma cópia, presente no papiro de Berlim, 3024. Tal papiro é datado da XII Dinastia (2040-1640 a.C.), possui 155 colunas verticais com a escrita hierática – esta possuía uso sacerdotal e derivava diretamente dos hieróglifos. Sua forma de grafia está bem feita, mas ainda assim possui erros e omissões, bem como outros papiros com outras histórias, e por isso pode ser uma cópia do original que deve ter sido produzido décadas antes. Quanto ao tamanho do papiro Berlim, 3024, atualmente possui de 15,9 cm à 16,4 cm de altura e 326 cm de comprimento, podendo ter perdido cerca de 66 cm de seu início. Recentemente, a pesquisadora espanhola Marina Escolano Poveda encontrou parte do início do texto que ainda está em análise. O documento foi encontrado na cidade de Luxor no ano de 1830 junto com outros três papiros, os manuscritos B1 e B2 do texto O camponês eloquente e o manuscrito B com um texto que já abordamos: o Conto de Sanehet. Sabe-se que os textos foram produzidos por diferentes escribas da época do faraó Amenenhat III (1844-1797 a.C.), pois possuem diferentes formas de caligrafia.Quem são as personagens desse conto? Primeiramente existem apenas duas personagens, o homem e o bá, o qual podem ser definidos como “ser” e “alma”. Portanto, o diálogo se desenrola pela conversa entre esses dois protagonistas. Como o início está perdido, o nosso texto começa na metade da fala do homem que demonstra um certo temor por seu bá deixar o seu corpo no dia de sua morte. Entretanto, o bá recusa a morte e o homem argumenta que sua alma deve permanecer junto dele quando o momento chegasse. Há um motivo para essa discussão estar em volta de um tema carregado como “a morte”. O homem pede duas vezes para que o Ocidente, ou seja, o mundo dos vivos, se torne mais leve, a primeira para o seu próprio bá, sua alma, e a segunda para os deuses. Observa-se que apesar do desespero do homem, ele ainda pede que sua vida terrena seja mais leve e que seu bá tenha paciência e que o deixe partir naturalmente e não de maneira forçada. Mesmo assim, o bá pensa na morte imediata, pois quer ir para o mundo dos deuses. Trata com futilidade os preparativos funerários e fala ao homem sobre as tristezas de um enterro. De maneira literária, esse momento pode ser uma crítica do autor quanto ao protocolo funerário tradicional.

A partir daí, parece que há uma troca de posicionamento entre o homem e o bá, pois a alma lhe diz: “Ouve-me! Eis que é bom para um homem quando ele ouve. Sê alegre um dia, não te preocupes!” E então, defendendo a vida, a alma cita duas parábolas para incentivar o homem, a parábola do fazendeiro e a da refeição matinal.

A primeira parábola trata com ênfase a morte irreparável, ou seja, aquela em que não houve chance de viver:

Representação do Bá da rainha Nefertari – XIX Dinastia – Tumba de Nefertari – Vale das Rainhas – Luxor – Egito.

Um homem humilde lavra seu pedaço de terra e carrega sua colheita num barco. Faz sua viagem rebocando o barco, pois se aproxima seu dia de festa. Ao ver chegar o anoitecer com o vento norte, fica vigilante no barco quando Ra se deita e assim sai com sua mulher e seus filhos, mas acontece o desastre no lago infestado de crocodilos à noite. Então ele se senta, quebra o silêncio e diz: Não choro por aquela mãe, que não pode voltar do Ocidente para viver outra vez na terra. Penso nos seus filhos quebrados no ovo, que viram o rosto do crocodilo antes de poderem viver.

A segunda indica a ideia de um desejo antes da hora apropriada, que no contexto da obra se coloca como “apressar o momento da morte”. Mas também que uma situação feliz pode mudar a qualquer instante, portanto uma reflexão para aproveitar a vida.

Busto do faraó Amenenhat III – XII Dinastia – Museu do Cairo – Cairo – Egito.

O homem humilde pede a refeição matinal, mas sua mulher lhe diz: é para o jantar. Ele sai porta afora reclamando e ausenta-se por algum tempo. Ao voltar para casa é como se fosse outro homem, sua mulher lhe implora e ele não a ouve porque continua a reclamar, sem prestar atenção a ninguém.

A resposta do homem acaba se apresentando numa série de quatro poemas que, de maneira resumida, tratam de questões da moralidade egípcia daquele momento – que se encontrava em decadência. Tais poemas mencionam rebelião contra o rei, brigas entre amigos e irmãos, o desejo de morte e a impressão de repelência dos deuses. A última fala, que pertence ao bá, mostra uma reconciliação entre o homem e a alma. Esta tem um papel de apologia à vida e um compromisso final que rejeita a morte prematura e aceita a morte natural: é a morte natural que permite ao egípcio ter felicidade no outro mundo e, ao final, a reconciliação do ser. O texto é finalizado com um colofão que diz: “Acabou do princípio ao fim, tal como estava no escrito”. Assim, o texto é em termos atuais, bastante filosófico, um pensamento sobre vida e morte, um ensinamento de uma parte da cultura egípcia antiga.

eferências bibliográficas
ALLEN, P. James. The debate between a man and his soul. A masterpiece of Ancient Egyptian Literature. Ed. Brill. Boston. 2011
ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade. Brasília. Ed. Universidade de Brasília. 2000
ASSMANN, Jan. A dialogue between self and soul: papyrus berlin 3024. in: BAUMGARTEN, A., ASSMANN, J., STROUMSA, G, G. (ORG). Self, Soul and Body. Leiden, 1998
CANHÃO. Telo Ferreira. Diálogo de um desesperado com seu ba. In: A literatura egípcia do Império Médio.
CHOBANOV, Yordan. A new interpretation of “the dialogue of a man and his ba”. Department for Mediterranean and Eastern Studies. Bulgarian Institute of Egyptology. New Bulgarian University, Sofia. 2015.
LICHTEIM, Miriam. Ancient Egyptian Literature. Vol. 1: The Old and Middle Kingdoms.
TRAUNECKER, Claude. Os deuses do Egito. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995.