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O complexo funerário do faraó Djoser em Saqqara

Vivian Tedardi – Historiadora do Museu Egípcio e Rosacruz

A organização de estruturas para enterramento de governantes é observada na cultura do Egito Antigo desde o período anterior à sua unificação, ou seja, desde o período pré-dinástico. Após a fundação do estado egípcio, no início do terceiro milênio antes de Cristo, Memphis tornou-se a primeira capital do Egito. Por isso, próximo dela encontram-se os principais cemitérios reais, sendo Saqqara um desses locais. Embora tenham sido construídas na região cerca de 15 pirâmides, sem dúvida a mais conhecida é a do faraó Netjerikhet, primeiro ou segundo governante da III dinastia. Contudo, este rei é comumente conhecido como Djoser, nome que se tornou mais comum a partir do Reino Novo.

 Mas, por que dentre tantas pirâmides construídas em Saqqara, foi a do faraó Djoser a que se tornou mais conhecida? Construída por volta de 2630 a.C., foi a primeira grande estrutura egípcia erigida em pedra. Até então tijolos de barro eram utilizados, demonstrando que nesse período havia uma certa estabilidade que possibilitou a exploração de novos recursos e uso de novas matérias-primas, como o calcário. Além disso, essa construção não se restringe a pirâmide, que por si só foi uma grande inovação, mas também por conta de todas as outras estruturas relacionadas ao complexo funerário do rei.  

É atribuída à Imhotep a autoria da construção, tendo sido ele o arquiteto responsável. O complexo possui uma muralha, uma entrada com uma câmara com colunas, estruturas relacionadas ao Festival Heb-sed, túmulo e pátio sul, pátio norte e templo funerário, o serdab, além da pirâmide em degraus. Sem contar a rede de poços e corredores abaixo da pirâmide que conduziam para as câmaras funerárias de membros da família do faraó.  

Ao observar a construção de fora, primeiro percebe-se uma grande trincheira em formato retangular, construída no eixo norte-sul. Depois há a parede do recinto, que circunda todo o espaço e tem a fachada adornada com nichos, sendo que os maiores abrigavam portas-falsas. O desenho da parede lembra as fachadas das tumbas da primeira dinastia, que por sua vez, eram inspiradas nas fachadas de palácio, que imitam feixes de junco amarrados. A entrada à sudeste era flanqueada por duas torres que conduziam a uma passagem que dava acesso a entrada da sala das colunatas. Esta sala leva ao pátio sul. São cerca de 40 colunas de pedra calcária, aos pares, com cerca de 6 metros de altura.

Ao sair da sala das colunatas dá-se para o pátio, espaço entre o túmulo sul e a pirâmide. Possivelmente no extremo sul havia uma plataforma formada por degraus, talvez utilizada para conter um trono duplo, e bem ao sul o acesso à câmara funerária sul. A interpretação que se tem para esta câmara funerária é a de que seria para abrigar o ka do rei na vida além-túmulo. Esta era acessada por uma escada que desce quase 30 metros e conduz a uma câmara de granito rosa. Há ainda três câmaras que possuem decoração em faiança azul, além de relevos do rei, representando-o oficializando o festival Heb-sed.

O festival Heb-sed, ou o jubileu, deveria ser realizado no trigésimo ano de governo do faraó e estava relacionado à renovação das forças do governante para continuar executando sua função. Com a intenção de que Djoser pudesse realizar o ritual no outro mundo, regenerando-se continuamente, foi construído um espaço relacionado à realização deste festival em seu complexo funerário. O pátio para a execução da festa Heb-sed é retangular e paralelo ao pátio Sul. Ladeando as áreas leste e oeste do pátio há capelas, nas quais os egiptólogos acreditam que estavam relacionadas à dupla coroação do rei durante o festival.

Contudo, entre todas as estruturas, a que realmente chama a atenção do observador é a pirâmide escalonada, formada por seis degraus, com uma altura de cerca de sessenta metros. Ao estudar o modelo de construção percebeu-se que ela foi revisada diversas vezes, de que inicialmente tinha a forma de uma mastaba, até ser alterada para a forma piramidal. A subestrutura da pirâmide possui diversas câmaras e galerias que teriam sido construídas para o enterramento do rei, de membros da família, além de armazenar bens e oferendas. No caso da câmara funerária foi construída à 28 metros, no centro da pirâmide, com um teto que apresenta estrelas de cinco pontas, representação do céu noturno, conceito que será observado em construções funerárias posteriores.

 Além da câmara funerária do faraó, a subestrutura da pirâmide possui um labirinto de túneis que formam galerias subterrâneas, poços e câmaras. Entre elas um conjunto de quartos projetados para servir como palácio para o Ka do faraó. Esse espaço é chamado de “câmara azul” devido a decoração em faiança azul esverdeada, cuja cor estava relacionada à regeneração. Há também três painéis com representações de Djoser em atividade ritual, ligadas ao festival Heb-sed.

Na região norte de todo o complexo havia o templo da pirâmide dedicado ao culto funerário do rei, onde diariamente oferendas deveriam ser apresentadas. Estava direcionado para as estrelas do norte, as quais o rei esperava se reunir na eternidade, ou seja, seguir para junto das estrelas que nunca perecem.

A nordeste desta construção ficava o serdab, uma pequena estrutura fechada que abrigava uma estátua do faraó, com suas dimensões reais. Nesta construção havia apenas dois orifícios na altura dos olhos da estátua que simbolicamente permitiriam ao faraó falecido observar e viajar até as estrelas circumpolares.

O complexo funerário do faraó Djoser pode ser entendido como um divisor de águas na arquitetura funerária do Egito Antigo. Embora a mastaba, mais antiga estrutura funerária, esteja presente, houve diversas inovações que foram apropriadas pelos reis de dinastias posteriores. Essas mudanças não estão relacionadas apenas à questão arquitetônica, mas também simbólica como a saída da pirâmide voltada às estrelas circumpolares, informação que será confirmada depois no “Texto das Pirâmides”, encontrado nas construções funerárias reais a partir do final da V dinastia.

 

Referências Bibliográficas

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CALVERT, Amy. Step Pyramid complex at Saqqara. Disponível em: https://www.khanacademy.org/humanities/ancient-art-civilizations/egypt-art/x7e914f5b:predynastic-early-dynastic-old-kingdom/a/step-pyramid-complex-at-saqqara Consulta em: maio de 2022.

EGYPT, Tour. Egypt: The Mortuary Temple at the Step Pyramid of King Djoser at Saqqara. Disponível em: http://www.touregypt.net/djoserc.htm. Consulta em: maio de 2022.

 

FRIEDMAN, Florence Dunn. The Underground Relief Panels of King Djoser at the Step Pyramid Complex. Disponível em: https://www.academia.edu/22655962/The_Underground_Relief_Panels_of_King_Djoser_at_the_Step_Pyramid_Complex. Consulta em: maio de 2022.

Lull, José. La astronomía en el antiguo egipto. 3ª edición. Puv. 2016

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